Enquanto a maior parte dos setores da economia sente os efeitos nefastos do novo coronavírus, os super e hipermercados registam um “aumento exponencial” da procura, quer nas lojas físicas, quer no online. O Lidl vai contratar 500 pessoas e a empresa responsável pelas entregas do Pingo Doce outras 300. Já a Mercadona está a antecipar a contração de colaboradores, que estava prevista no plano de expansão de lojas, mas que foi entretanto adiado. E o Continente não diz se vai reforçar o número de trabalhadores, mas adianta que a procura na loja online “mais do que sextuplicou nas últimas semanas“.

Para 258 lojas do país e quatro centros de distribuição, o Lidl vai contratar 500 pessoas de forma a garantir que  que as prateleiras têm bens alimentares de primeira necessidade. A retalhista diz que assistiu a um “aumento exponencial de afluência” às lojas da cadeia de retalho nas últimas semanas e garante que está “há várias semanas a trabalhar com os seus fornecedores e os vários parceiros da sua cadeia de valor para continuar a garantir o fornecimento de bens aos seus clientes”.

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As regras de segurança dos colaboradores também foram apertadas, com um reforço do gel desinfetantes nas lojas, assim como da limpeza dos materiais e equipamentos. Foi ainda “iniciada a instalação de uma estrutura acrílica nas caixas de pagamento, reduzindo o contacto físico”. No chão, junto às caixas de pagamento, foram colocadas marcas para assinalar a distância de segurança. O Lidl está ainda a sensibilizar os clientes para a “adoção de boas práticas”, nomeadamente o pagamento com cartões contactless ou através de MB Way, em vez de dinheiro.

Ao Observador, a Mercadona, que chegou a Portugal no início de julho de 2019, diz que está a antecipar a contração de colaboradores, cujo início de funções estava marcado para mais tarde, no âmbito do plano de expansão de lojas. “Temos uma bolsa de colaboradores que pode apoiar as equipas já existentes nas nossas lojas”, refere a cadeia de retalho espanhola. Cada loja terá um reforço de entre 10 a 15 trabalhadores, em média, adianta a retalhista, que em Portugal não tem serviço de entregas ao domicílio.

Por exemplo, a abertura da nova loja de Aveiro, que estava prevista para 24 de março, foi adiada, pelo que a equipa que para aí estava destinava está “pronta a contribuir nas restantes lojas”. Por isso, o processo de contratações em curso não vai ser suspenso — mas sim, acelerado, com entrevistas por vídeoconferência.

A Mercadona também sentiu um “pico de afluência” que, porém, entretanto “estabilizou”. E garante que, caso o pico se volte a verificar, tem “uma cadeia de distribuição eficiente”. Apela ainda a que não se armazenem “produtos desnecessariamente”.

Também os supermercados do El Corte Inglés sentiram um aumento da procura. Para isso, as equipas destes estabelecimentos foram reforçadas com alguns dos trabalhadores das restantes lojas da cadeia, que tiveram de fechar devido à Covid-19. Ao Observador, o El Corte Inglés diz ainda que há funcionários de departamentos que estão em teletrabalho, mas que, em regime de voluntariado, reforçam ocasionalmente as equipas que organizam as encomendas online.

Online dispara: no Continente procura sextuplicou; a Auchan tem, literalmente, uma fila de espera no site

Com as recomendações para ficar em casa durante a epidemia, muitos optam por comprar online, mas também aí há filas. Ao Observador, o Continente refere que o acesso à loja online “mais do que sextuplicou nas últimas semanas” (há quatro dias, a retalhista dizia que a procura tinha triplicado), mas assegura que está a realizar “todos os esforços para conseguir dar resposta”. Não indica, porém, se tal passa pelo reforço de pessoal.

Dado o elevado volume de tráfego verificado no site, “o Continente relembra aos clientes que também podem recorrer à app Continente”. A retalhista implementou alterações temporárias nos serviços: a recolha de sacos de plástico, que era feita devido à política de reciclagem, deixará de ser feito; as entregas ao domicílio, que têm demoras de semanas, serão feitas à porta do cliente, “não havendo entrada dos funcionários no local”. E o pagamento deixa de poder ser feito no ato de entrega: passa a ser exclusivo dos canais online por cartão de crédito, MB Way ou PayPal.

Sites em baixo e longas esperas: Supermercados online com problemas a gerir aumento de procura

Já o Pingo Doce, da Jerónimo Martins, diz que não prevê mais contratações. O reforço é feito nas entregues no online: o Mercadão – a empresa responsável por esse serviço e que não pertence à Jerónimo Martins, não tem tido mãos a medir. À TSF, o presidente executivo da empresa, Gonçalo Soares da Costa, adianta que as encomendas mais do que triplicaram, tendo-se verificado um “pico de entregas”. A solução agora passa pela contratação de 200 a 300 pessoas — a equipa tem atualmente cerca de 150 — o que já está a ser feito recorrendo a empresas de transporte de passageiros como a Uber.

“Mais do que uma hipótese, é algo que já estamos a fazer hoje. Quer com operadores como a Uber, quer junto a outros operadores”, afirmou Gonçalo Soares da Costa. O Observador pediu mais detalhes ao Mercadão sobre esta sinergia, mas não obteve resposta até ao momento.

As filas de espera não são apenas físicas e, na Auchan, quem pretende fazer compras no site tem de esperar “mais do que uma hora”. O Observador também contactou a retalhista para perceber se está a ser feito algum reforço de pessoal, mas não obteve resposta.

O aviso do tempo de espera no site da Auchan

O boom nas compras online sente-se em todo o mundo e a retalhista norte-americana Amazon já anunciou que está a contratar 100.000 trabalhadores para os armazéns e entregas de encomendas, para dar resposta ao aumento da procura durante a pandemia. Segundo a empresa, quem estiver interessado não precisa de ter experiência e pode começar a trabalhar já dentro de uma semana.