No mundo da arte, poucos nomes estão tão ligados quanto os de Goscinny e Uderzo. Há casos de romancistas a quatro mãos, de cineastas que não abdicam das suas musas e até de pintores que confiam boa parte do trabalho às suas oficinas; no entanto, o caso de Goscinny e Uderzo é diferente. Em geral, há nestas relações uma certa hierarquia pressuposta; apesar de tudo, Marx tem muito mais peso no binómio do que Engels.

Ora, na banda desenhada, por mais que Goscinny fosse o maior argumentista de todos os tempos, por mais que deixasse instruções pormenorizadíssimas sobre o que queria para cada vinheta, não pode funcionar da mesma maneira.

Astérix pode ter os argumentos mais inventivos da história da banda desenhada, mas nunca teria o impacto que teve sem as figuras que Uderzo criou, nos seus contornos bem definidos, nos traços surpreendentemente simples e tão característicos, cheios de narizes redondos e cores vivas, sem as suas figuras cómicas e atrativas à primeira vista.

Uderzo ganhou gosto pela banda desenhada através dos quadradinhos do rato Mickey, que lhe deram ao desenho uma versatilidade surpreendente. Por muito que o seu traço surja na época dourada, não faz parte nem da linha clara nem do desenho mais preenchido do bando dos quatro.

Hergé desenhou o Tintim a partir de uma câmara mais afastada, limpou o cenário, de tal maneira que o olho do leitor está sempre mais focado na ação; o desenho de Franquin, mais voltado para o pormenor e para os gags discretos, enche os quadradinhos mas mantém as figuras alongadas – embora mais abonecadas – de Hergé; só Uderzo parece dar aos seus desenhos alguns traços próprios da antropomorfização de animais vinda da Disney. A anatomia que Uderzo criou para Asterix é uma anatomia própria, de um género caricatural único, que criou herdeiros por todo o mundo.

As pernas e os braços finos e flexíveis, ideais para criar a impressão de movimento, quadram com os corpos pesados, que se impõem no quadradinho, de fixação rápida; mais importante, o aumento do tamanho das cabeças e sobretudo das proporções dos narizes torna cada figura mais expressiva e facilmente identificável.

No Astérix não há o perigo, que temos no Michel Vaillant ou nos desenhos de Milo Manara, de nos aborrecermos com a monotonia das figuras, todas demasiado parecidas. O desenho de Astérix tem uma qualidade a toda a prova porque consegue, mantendo uma unidade estilística, criar personagens de uma identidade claríssima, que se fixam desde o primeiro quadradinho e não mais se esquecem.

Uderzo e Goscinny em 1967

Poucos autores têm esta capacidade. Nem Morris, com o seu Lucky Luke, consegue o mesmo. Há certamente desenhos característicos, como os de Calamity Jane, dos Dalton ou de Billy the Kid; no entanto, esta capacidade de encontrar elementos distintos esgota-se nas personagens mais importantes. O povo das cidades, que tão importante é no Lucky Luke, é quase indistinto. Em Astérix, porém, a galeria de personagens secundárias tem uma riqueza gráfica impressionante. Entre centuriões e questores romanos, jovens turcos que se julgam capazes de derrotar a aldeia gaulesa (seja o vilão de Obélix e Companhia, seja o da Zaragata), piratas, ou gauleses, de Agecanonix a Ordalfabétix, a variedade é impressionante e mostra a elasticidade do estilo.

Isto é especialmente notório, aliás, na forma como Uderzo consegue usar os pastiches e as figuras reais. Quando Mark Twain ou Lincoln aparecem em Lucky Luke, dificilmente nos soltamos da personagem real; mas a transformação que Uderzo fez das personagens de Barba-Ruiva entra para a galeria de melhores adaptações que a banda desenhada já conheceu.

O estilo de Uderzo demorou a cristalizar. Os primeiros esboços de Humpa-pá mostram uma figura Schwarzneggeriana, quase inexpressiva, que Uderzo manteve, certamente por razões afetivas, nas reedições, mas em que tudo à volta foi melhorado. Humberto da Massa-Folhada já tem a elasticidade cómica típica de Uderzo, e os piratas a figura atarracada que em Uderzo é própria dos cómicos involuntários.

Apesar de Humpa-pá ter sido uma criação injustiçada pelo público, Uderzo dificilmente se poderá queixar de falta de receção. A sua figura principal é famosa em todo o mundo, é a figura principal de muitas das mais belas histórias da Banda Desenhada e ganhou uma dimensão comercial monstruosa.

Uderzo, como é normal, terá querido experimentar as ramificações dos seus talentos, e daí saíram resultados bastante diferentes. Tanguy e Laverdure, onde Uderzo experimenta o desenho realista numa banda desenhada de ação, é uma prova da versatilidade do seu talento: o espectáculo das manobras de aviação, o desenho mais indefinido, têm ainda a qualidade dos melhores; não será tão original quanto Astérix, mas é ainda assim um excelente desenho para uma banda desenhada de grande qualidade; as suas aventuras como argumentista, porém, deixam mais a desejar.

É certamente compreensível que um pai não queira perder um filho quando já perdeu um irmão; que a morte de Goscinny, no auge da sua produção, não matasse também Astérix, conseguimos perceber.

Uderzo não quis entregar a pequena aldeia gaulesa a ninguém até há bastante pouco tempo. Não revelou para a escrita nem metade do génio que mostrou no desenho; no entanto, quem desenhou aquilo que Uderzo desenhou não precisa de mais nada. Aqueles bigodes loiros sob um gigantesco nariz de batata, as penas firmes num capacete reluzente e o gládio tão poucas vezes usado são obra que chegue para que lhe admiremos o génio para sempre.