Na tentativa de encurtar a distância física, quatro marcas portuguesas juntaram-se tirando proveito de uma das mais valiosas ferramentas do século XXI, o Instagram. Às joias e acessórios de Catarina Vassalo juntou-se Vera Fernandes, a criativa por trás da Buzina, e a estas os vestidos de noiva de Pureza Mello Breyner e a marca de roupa para crianças Bloom’In, projeto de Marcela Mello Breyner Lagos. Mais do que vender, em tempo de crise, elas quiseram criar uma plataforma de partilha.

“No fundo, quisemos fazer o que já toda a gente estava a fazer, nomear marcas no Instagram, mas a sério. Não é para distrair ninguém, é para dar conhecer as pessoas que estão por trás das marcas”, explica Catarina Vassalo, uma das mentoras do projeto #UmaSóMarca, ao Observador.

A proposta é uma espécie de fórum aberto onde estas quatro empreendedoras vão falar sobre sucessos e frustrações, dos desafios de gerir um negócio mas também daquilo que o futuro poderá reservar a pequenas estruturas como as suas. A tónica, contudo, está muito mais no otimismo no que numa avaliação dos efeitos negativos, por muito que esses seja uma realidade incontornável.

Para Catarina, o negócio ia de vento em popa. Neste momento, trabalha com uma equipa de três pessoas, cada uma em sua casa. As peças para noivas continuam a ser produzidas (os casamentos que tinha em agenda para os próximos meses foram adiados, não cancelados), a venda dos restantes acessórios sofreram um “baque”, como detalha a empresária. “Temos de dar uma dinâmica à nossa economia, comprar nas nossas marcas portuguesas, não nas grandes multinacionais. Os nossos envios, por exemplo, estão todos a ser feitos através de uma transportadora pequenina e estamos a tentar fazer tudo com essas empresas”, desabafa.

Há três anos, Marcela Mello Breyner Lagos criou a Bloom’In, uma marca de vestuário para crianças de base clássica que, através de uma loja online, começou a atravessar fronteiras. O balanço não podia ser mais positivo — vendas para toda a Europa e uma coleção de verão prestes a sair. A quarentena foi um rude golpe, o consumo retraiu-se e ao unir-se a outras marcas Marcela procura agora projetar um futuro de regeneração. “É este espírito de entreajuda que nos une agora. Achei que era importante debater ideias e conversar com pessoas que estão na mesma situação que eu. Esta situação está a mostrar-nos que sozinhos não vamos a lado nenhum”, afirma a empresária ao Observador.

Neste pontapé de saída (o perfil foi criado há três dias), a plataforma alojada no Instagram compromete-se a preencher a agenda dos seguidores com tutoriais, conversas e workshops. “Sempre fomos marcas criadas para valorizar o singular. Prezávamos o contacto pessoas e o trato físico […] Há uns dias a nossa vida mudou inesperadamente. Despedimo-nos dos nossos espaços e, com eles, das nossas pessoas e andamos a ajustar-nos para garantir que continuamos a construir e a entregar-vos os nossos sonhos, agora desde casa”, escreveram as quatro empresárias num manifesto coletivo.

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Todas as marcas, ou pelo menos aquelas que verdadeiramente marcam as suas pessoas, nasceram de um sonho ou de uma grande paixão. Às vezes esses dois ingredientes acompanharam os fundadores por toda a sua vida, outras vezes foram apenas descobertos por um culminar de circunstâncias e experiências. A Catarina costuma dizer que a @catavassalo , e a sua paixão por criar peças, nasceram de um conjunto de oportunidades que foram surgindo e que ela agarrou com determinação. No entanto também conta que já em criança criava acessórios para a sua irmã vender na praia. Quer tenha sido um acaso, um sonho antigo que estava esquecido ou uma combinação de ambos, a verdade é que a Catarina é a Cata Vassalo e a Cata Vassalo é a Catarina. Sem fronteiras. Sem limites. E sem barreiras. E isso talvez seja aquilo que mais marca esta marca e todas as marcas que realmente marcam a diferença. Já dizia Confúcio "Faz o que gostas e não terás que trabalhar um único dia da tua vida".

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Para Inês Teixeira Botelho, profissional de marketing e curadora do #UmaSóMarca, pequenas marcas e pessoas têm pontos em comum e, no final do dia, todos ganham com a partilha de experiências. “As dúvidas e os medos são os mesmos. Estas marcas portuguesas vão passar por dificuldades e têm de aguentar o barco. E, se calhar, há pessoas que, amanhã, vão ter de começar os seus próprios negócios”, refere Inês, à conversa com o Observador.

Nestes primeiros dias, a prioridade é dada aos testemunhos das quatro mentoras, embora também estejam planeados conteúdos de teor mais prático — “a Cata Vassalo a ensinar a fazer uma tiara para o cabelo, ou aprender alguma coisa de costura com a Pureza, por exemplo”, esclarece Inês. Ainda assim, esse não é o foco principal da plataforma.

O mais recente projeto de Pureza, Vera, Marcela, Catarina e Inês não se querem fechar nas suas próprias reflexões, mas sim servir de palco às mensagens de outras marcas com expressão no contexto da moda portuguesa. Serão à volta de dois novos testemunhos por semana e poderão refletir todo o tipo de experiências de quem segue ao leme de uma pequena marca nacional. Num momento em que é o Instagram o principal canal de comunicação dos indivíduos para o mundo, estas quatro marcas usam-no para criar uma comunidade.