“Quero um cafezinho, por favor”. O pedido típico que se ouve nos cafés, restaurantes e pastelarias ganhou outro peso em pleno estado de emergência do país devido ao surto do novo coronavírus. Agora, e nos estabelecimentos que podem continuar a funcionar, o café é só para levar e é servido em copos de cartão ou plástico. Esta foi uma das várias mudanças que a Pastelaria Bem Bom, localizada no centro do Porto, também teve de adotar. “Tomara que tivéssemos um prazo para que isto acabasse, mas provavelmente ninguém sabe. Vamos esperando”, desabafa Fernanda Pereira, gerente desta pastelaria.

À entrada surge o aviso de que só podem entrar duas pessoas de cada vez e com a devida distância de segurança entre elas naquela pastelaria. As mesas onde antes se sentavam os clientes estão agora arrumadas e interditas e tudo o que é produzido é vendido para levar. Apesar de estar autorizada a manter as portas abertas durante o estado de emergência — por produzir um bem essencial — os efeitos da falta de clientes nos últimos dias já se estão a sentir. Mas Fernanda Pereira também entende a situação: “Quase não vem ninguém. Sabemos o porquê de não virem cá e a intenção é que venha pouca gente. É essa a intenção do Governo e de toda a gente”.

A gerente desta pastelaria decidiu manter o estabelecimento aberto não só a pedido de clientes habituais, mas também porque “há funcionários que não querem ir para casa e pediram para estar aqui a trabalhar umas horas”. Em média, a pastelaria Bem Bom conta com 15 funcionários, embora nem metade esteja a trabalhar nos últimos dias. Esta terça-feira, houve uma aposta nas refeições take-away, como sopa de legumes e sandes, mas nem isso chamou mais gente.

Não tem comparação possível. Era uma casa que estava sempre cheia, sempre com fila à espera para sentar…é quase nada em comparação ao que era. Estamos aqui porque há aqueles clientes que andam aí na rua e pedem para continuarmos. E, já que podemos estar aqui, sempre vendo o pão, que é um bem essencial. É só por causa disso”, refere Fernanda Pereira.

“É uma situação nova para todos”

Na rua abaixo, e num percurso facilmente feito a pé numa altura em que as ruas da cidade estão praticamente desertas, está outro dos estabelecimentos que permanece aberto: A Favorita do Bolhão, uma das mercearias mais antigas do Porto. Logo à entrada há algo que já indica uma adaptação do negócio à situação de pandemia: uma corrente separa a entrada da loja do restante espaço, de forma a controlar o número de pessoas que entram e, assim, evitar aglomerados. “Temos tido também um cuidado especial com a limpeza da loja. Já temos esse cuidado durante todo o ano, agora ainda mais”, refere ao Observador Nuno Jesus, encarregado de loja desta mercearia.

A Favorita do Bolhão

Logo à entrada da Favorita do Bolhão foi colocada uma corrente para controlar o número de pessoas que entra na loja e, assim, evitar aglomerados (Ana Catarina Peixoto/Observador)

Apesar de se estar a assistir a uma maior procura por estabelecimentos comerciais mais pequenos, para evitar as multidões das grandes superfícies, nesta mercearia a procura “tem quebrado bastante”. Já os produtos (e a quantidade) que são levados não se alteraram muito: “Alguns clientes habituais que temos continuam a vir e levam os mesmos produtos que habitualmente costumam levar. Poderão, no caso das conservas ou mesmo dos frutos secos, levar um bocadinho mais para evitar vir cá tantas vezes, mas também não é uma coisa muito substancial”.

Uma das diferenças que quem passa pelas ruas do centro do Porto tem reparado — e à semelhança de vários locais do país — é na maior presença das autoridades para controlar se os estabelecimentos e pessoas estão a cumprir as regras determinadas pela situação de estado de emergência. Em poucos minutos, são vários os carros da Polícia Municipal do Porto que atravessam as ruas. “Temos notado aqui uma afluência maior da polícia para verificar se os estabelecimentos estão a cumprir, se apenas estão abertos os estabelecimentos que podem estar e se, dentro desses, estão a cumprir todas as regras”, explica Nuno Jesus.

A situação, acrescenta o responsável, “é nova para todos”, ainda que o estabelecimento continue a funcionar da mesma forma. “Daqui para a frente vamos ver como é que a coisa se desenrola e vamo-nos adaptando”, refere.

A procura diminuiu 90% e os turistas “neste momento são zero”

Na Papelaria do Carmo, situada num dos locais da cidade onde passam mais turistas, a situação é semelhante ao resto dos estabelecimentos que ainda estão abertos no centro: “O número de clientes diminuiu drasticamente, cerca de 90%”, admite Ivo Barros, um dos sócios-gerentes desta papelaria.

No início, conta o responsável, ainda houve “algum açambarcamento do tabaco, nos dias em que foi declarado estado de emergência”. Agora o cenário já não é o mesmo, os fornecedores apenas vêm uma vez por semana e os clientes que por aqui passam “levam essencialmente tabaco, jornais e, depende dos dias, apostam nos jogos da Santa Casa”. As regras também foram adaptadas: “Neste momento só entra um cliente de cada vez na loja e só vem um funcionário de cada vez para nos protegermos. Também reduzimos o horário”.

O turismo, um dos grandes pilares da cidade, tem diminuído a olhos vistos. “Ficaram zero. Costumávamos ter muito turismo, muita venda de bilhetes para autocarros turísticos, barcos e, neste momento, é zero, não há turistas”, acrescenta Ivo Barros. O futuro é incerto mas o importante, sublinha o gerente, é resolver esta situação de pandemia: “A grande preocupação é a nossa integridade física e a saúde. Só depois teremos que pensar nisso e na possibilidade de continuidade ou não”.

Câmara do Porto promete ajuda a famílias e empresas da cidade

Depois de anunciar esta quarta-feira que atingiu, em Dezembro do ano passado, pela primeira vez o endividamento zero à banca, a Câmara Municipal do Porto referiu que esta folga económica vai servir “para ajudar as famílias e empresas do Porto”, sobretudo nesta fase em que a atividade económica está condicionada. Rui Moreira, presidente da autarquia, está a preparar “cuidadosamente um pacote de medidas que quer previamente discutir com o executivo, à medida que percebe qual a duração da crise e as suas consequências na receita”.

A autarquia refere na sua página oficial que “tem plena consciência” dos efeitos dos planos de mitigação da pandemia, com a paragem do tecido económico da cidade”, e que, por isso, é necessário uma resposta a nível nacional e local. Para a Câmara do Porto, será necessário “aliviar os custos fixos das empresas e sobretudo do comércio”, estando já a preparar, entre outras medidas, as condições para isenção de taxas e licenças ao comércio.

No Mercado do Bolhão, por exemplo, o executivo já anunciou o reforço dos apoios aos comerciantes para fazer face não só “à prorrogação dos prazos de conclusão da obra de restauro e modernização do centenário equipamento municipal, mas também para servir de ‘almofada financeira'” aos comerciantes, num período “particularmente crítico e de incerteza causado pela atual crise pandémica”.