O médico cirurgião Eduardo Barroso não compreende a decisão de encerrar a unidade do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplantação (CHBPT) do Curry Cabral para que o hospital se possa dedicar a receber apenas doentes infetados com o novo coronavírus. Considera o encerramento “demagógico” e “preocupante”, por afastar os doentes de um serviço que distinguia o SNS pela inovação, em Portugal e no estrangeiro.

Contactado pelo Observador, o especialista em cirurgia hepática, pioneiro na área, diz que não quer criar uma polémica e, sim, contribuir para a gestão da crise, mas considera que era possível manter operacional aquela unidade, mesmo estando o hospital a receber mais pacientes com doenças infecciosas:

“É possível compatibilizar, desde que haja circuitos diferentes para estes doentes e os infetados com a Covid-19. O hospital não pode ficar entregue a infecciologistas e médicos de saúde pública. Senão, está-se a abandonar os outros doentes”, considerou.

Eduardo Barroso trabalhou naquela unidade até fazer 70 anos, altura em que teve de sair para a reforma — por ser o limite de idade previsto na lei —, apesar de ter passado a operar na Fundação Champalimaud. Agora, teme que o CHBPT, que considera ter “o melhor bloco operatório do país em hospitais públicos”, com “valências únicas e de prestígio mundial”, possa ser “destruído” com a decisão de colocar o Curry Cabral totalmente empenhado no tratamento de doentes com a Covid-19. Mais do que isso, sente-se “apreensivo” com as consequências que isso poderá ter em todo o Serviço Nacional de Saúde:

Eu sou um homem do SNS. Depois desta pandemia, o SNS vai ficar de rastos e acabou-se com o que o distinguia dos hospitais privados. Não há nenhuma unidade de transplantação que faça o que o Curry Cabral faz. São estas valências que não se podem perder”, previu.

Por causa da Covid-19, o hospital vai passar a ser totalmente dedicado ao tratamento de infetados com coronavírus. Em entrevista ao Observador, esta semana, o diretor do serviço de Infecciologia explicava que os outros doentes “estão ser redistribuídos por outros hospitais com os mesmos serviços e especialidades em Lisboa”.

“Situação exige improvisos no SNS, mas não se pode condenar tudo”

Eduardo Barroso não concorda. Explica que a unidade dedicada à cirurgia e transplante do foro hepático no Curry Cabral está equipada com equipamentos de topo, incluindo um robô para intervenções cirúrgicas vindo da Fundação Aga Khan, no Paquistão, e tecnologia de ponta na área da radiologia de intervenção.

Serviço de Doenças Infecciosas no Hospital Curry Cabral. Créditos: FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Tudo isso está em suspenso para que o hospital se dedique ao novo coronavírus — uma escolha que demonstra “uma certa desorientação”, afirmou:

Uma situação como esta exige improvisos no Sistema Nacional de Saúde, mas não se pode condenar tudo. Não se pode parar a cirurgia cardíaca, pulmonar ou o tratamento de cancros. Há outras coisas que precisam de continuar a funcionar. O combate à Covid-19 não pode destruir as inovações que põem o nosso SNS na vanguarda”, acrescentou.

Eduardo Barroso compreende a necessidade de ajustar o SNS ao problema de saúde pública que o novo coronavírus provocou. E diz-se preocupado com a situação: “Tenho filhos, tenho netos e já tenho 71 anos”, sublinhou. Mas considera que no Hospital Curry Cabral, onde liderou a equipa que abriu o CHBPT, “aumentar o número de camas para tratar o vírus não tem de condenar uma valência que não pode ser destruída”. “Se o Santa Maria não o fez, se o São João também não o fez, porque é que o Curry Cabral não conseguiria manter este centro aberto?”, questiona o médico.

Eduardo Barroso no CHBPT, no Curry Cabral, em 2018. Créditos: PAULO SPRANGER/Global Imagens

O que terá acontecido, então, para se encerrar o centro nesta altura? “Medo, talvez”, considerou o cirurgião, “por haver quem ache contraditório ter uma unidade destas num hospital que agora está dedicado à infecciologia”. Ou então, “pressões”:

“Confio muito na minha antiga administração, no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central. Mas podem estar a sofrer pressões que levem a erros trágicos”, teoriza.

Além do Curry Cabral, há outros três hospitais com capacidade para fazer cirurgias e transplantes hepáticos — o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Hospital Geral de Santo António (Porto) e a Fundação Champalimaud (Lisboa). Mas, entre os públicos, “nenhum se equipara ao Hospital Curry Cabral nesta matéria”, avisa Eduardo Barroso. E, de resto, é o único público na região sul do país.

O cirugião sublinha que não quer criar polémica, pelo contrário: “Não quero contribuir para nenhuma desunião. Quero, sim, contribuir para a coordenação, para a gestão de crise”, termina. E desabafa: “Ninguém está preparado para isto. Por isso é que esta união é precisa”.