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O primeiro-ministro italiano pede que a União Europeia (UE) utilize “uma ferramenta de dívida comum” para fazer frente à crise económica que se antecipa devido aos efeitos da pandemia de Covid-19.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, Conte quis deixar claro que “ninguém está a pedir à Europa que se encarregue das dívidas soberanas”, dizendo que a Itália não está a pedir para partilhar a sua dívida. Mas especificou que “é o momento de introduzir uma ferramenta de dívida comum europeia”, por ser necessária “uma reação forte e unitária, que recorra a instrumentos comunitários”.

Quem sente a Europa no coração deve apoiar esta causa. Se a UE não está à altura da sua vocação e do seu papel nesta situação histórica, os cidadãos vão ter mais confiança nela ou vão perdê-la definitivamente?”, questionou o chefe de governo italiano.

A escolha do maior jornal diário espanhol para dar esta entrevista não terá sido por caso. Itália e Espanha são neste momento os países europeus mais afetados pela epidemia do novo coronavírus e Conte quis cerrar fileiras com o governo de Pedro Sánchez e deixar um aviso a países como a Holanda, que criticou os governos de Espanha e Itália por não terem orçamentos capazes de enfrentar esta crise.

“Nenhum país, incluindo os que acham que neste momento sofrem um impacto menor, podem excluir-se desta grave crise”, declarou. E agitou ainda o fantasma de um “risco” do crescimento do anti-europeísmo: “Os instintos nacionalistas, em Itália, mas também em Espanha e por todo o lado, serão muito mais fortes se a Europa não estiver à altura.”

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Sobre a situação em Itália, Conte disse ser “prematuro” falar ainda sobre abrir o país — que está em lockdown total — e reforçou que qualquer medida do género terá de ser gradual. Reconhecendo que a paragem da atividade produtiva não pode durar demasiado, por ser “muito dura economicamente”, sugeriu que possam ser introduzidas medidas “de forma gradual”, como por exemplo relativamente a escolas e universidades.

O primeiro-ministro italiano reconheceu, contudo, há problemas a nível “social e, sobretudo, de ordem pública” em Itália neste momento — onde já houve assaltos a supermercados e incitamento à rebelião, ligados sobretudo à Máfia.

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“As pessoas estão a fazer muitos sacríficos e está a crescer um grande mal-estar, também psicológico”, reconheceu o primeiro-ministro. “Começamos a ter um problema que também é material, porque muitos cidadãos não têm salários fixos.” Por isso, Conte garantiu que foi criado um fundo de mais de quatro milhões para as autarquias, para que sejam dados apoios de primeira necessidade. “Há que intervir para evitar que as pessoas, como num período de guerra, tenham dificuldade em alimentar-se”.