Lamine Diack, um senegalês que chegou a ser campeão de França no salto em comprimento na década de 50 e que foi detentor do recorde nacional da especialidade durante alguns anos, entrou na malha da justiça gaulesa há alguns anos e de lá não sai. Aliás, cada vez mais a malha aperta e no sentido de diferentes nós com o avolumar de suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e conspiração em torno do antigo presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), que foi detido no início de novembro de 2015 em Paris.

Mais suspeitas de corrupção. Agora nas Olimpíadas de 2016 e 2020

Parcerias de marketing, decisões no caso contra a Rússia a propósito do recurso a doping por parte dos atletas do país de leste, atribuição dos Jogos Olímpicos de 2016 ao Rio de Janeiro, contratos para cedência de direitos de transmissão de provas internacionais e patrocínios, decisão sobre os Mundiais de atletismo de 2017 em Doha, influência na escolha de Tóquio como cidade organizadora dos Jogos de 2020. Todos os caminhos iam parar a Lamine Diack, que se encontra há alguns anos em prisão domiciliária, numa habitação de luxo em Paris. E um deles voltou agora a ser abordado, com mais desenvolvimentos sobre dúvidas que já remontam ao ano de 2015.

Nessa altura, e de acordo com uma investigação do The Guardian, o Comité Olímpico Internacional surgia como suspeito de corrupção no processo de escolha da cidade japonesa para os Jogos de 2020, através de depósitos de 1,3 milhões de euros na conta de uma empresa ligada a Papa Massata Diack, filho do ex-líder da IAAF e consultor de marketing, feitos para que Lamine Diack pudesse comprar alguns votos a favor de Tóquio na corrida contra Madrid e Istambul. “A empresa de consultadoria foi necessária para a recolha de informação em nome da nossa estratégia para organizar os Jogos Olímpicos e essa empresa é a que foi mencionada. Todavia, fomos informados de que o Comité Organizador não sabia da ligação desta empresa com Lamine Diack”, defendeu então Hiroshi Hase, ministro japonês com a pasta do Desporto. E o assunto, ainda que sob alçada da justiça francesa como mais um ponto da teia que estava a ser investigada em torno do senegalês, ficou por aí.

Presidente do Comité Olímpico do Japão de saída devido a escândalo

Agora, a Reuters acrescenta mais um capítulo nas suspeitas em torno de um alegado suborno feito através da própria candidatura da cidade de Tóquio: Haruyuki Takahashi, empresário japonês conhecido pelos negócios no mundo da publicidade, terá recebido um total de 8,2 milhões de dólares (cerca de 7,5 milhões de euros) por parte da Comissão Organizadora para que pudesse pressionar e garantir votos junto de membros do Comité Olímpico Internacional. Um dos nomes, como não poderia deixar de ser, é mais uma vez o de Lamine Diack.

Em declarações à Reuters, Takahashi confirmou que deu algumas “recordações baratas”, como descreveu, como câmaras ou relógios (da marca Seiko), dizendo mesmo que Diack foi uma das pessoas “gratificadas” com os brindes. No entanto, sem negar que recebera esse valor, recusou avançar a razão para isso nem para onde foi o dinheiro. “As pessoas não costumam ir de mãos a abanar, é do senso comum”, acrescentou a propósito das ofertas, nos encontros que iam existindo. Assim, e de acordo com a publicação, o empresário seria um intermediário entre o dinheiro e as pessoas que tinham capacidade de decidir entre o COI. Com ou sem relação a isso, Takahashi foi depois convidado a integrar o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020.

Suspeitas de corrupção na atribuição dos Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro

Facto 1: Haruyuki Takahashi recebeu através da Dentsu Inc., uma agência de publicidade que fez todo o trabalho de promoção da candidatura da cidade de Tóquio, os tais 7,5 milhões de euros. Facto 2: nos registos bancários que o Comité da Candidatura de Tóquio já teria dado às autoridades francesas e que foram analisados pela Reuters está o pagamento de 46.500 dólares (cerca de 42.400 euros) à Seiko Watch, valor explicado por um elemento desse Comité como investimento nas operações de charme que eram feitas pelos nipónicos. E é aqui que voltamos a Lamine Diack: de acordo com um elemento do Comité Olímpico do Senegal, o antigo líder da IAAF organizou um encontro entre todos os comités africanos na véspera da votação dizendo que iria escolher Tóquio, acrescentando ainda que não houve todavia qualquer ordem formal que indicasse um sentido para os outros.