Um estudo do economista António Afonso para a Rede Europeia para a Investigação em Política Orçamental e Económica prevê uma quebra económica entre 3,9% e 5,8% em 2020 em Portugal, e um défice até 4%, devido à pandemia.

Começando por se referir ao período de recuperação da crise económica anterior, de 2008-2009, António Afonso, no estudo para a EconPol Europe, prevê que seja “bastante provável observar uma ainda maior retração do consumo privado desta vez, dado que a incerteza é mais fundamental e incisiva, particularmente para as famílias”.

Quanto às previsões de investimento, o professor do ISEG -Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa prevê um intervalo de números “mais pessimista”, de uma queda de 10% a 14%, podendo até “o cenário mais pessimista estar a ser cauteloso”.

Relativamente aos gastos públicos, o economista alerta para que a queda de 6% registada entre 2012 e 2013 “não é uma linha de guia válida agora”, prevendo que na atual crise a despesa do Estado possa crescer de 2% a 3% para contrariar os efeitos económicos da pandemia de Covid-19.

No cenário mais otimista, o académico prevê uma queda de 9% nas exportações e 8% nas importações, no cenário base uma quebra de 12% e 11%, e no mais pessimista descidas de 15% e 14%, respetivamente.

O economista alerta para que há outros fatores que podem influenciar o comportamento da economia nacional, como “o custo do financiamento soberano para enfrentar o aumento de despesa pública”, ou ainda “a provável redução de receitas fiscais”.

“Definitivamente, nos mercados de capitais tende a existir uma clara correlação histórica negativa entre os rácios de equilíbrio orçamental e os juros soberanos a dez anos”, alerta o professor universitário.

António Afonso afirma que neste momento “permanece um ponto de interrogação”, para os países periféricos como Portugal, se a compra de ativos de dívida no valor de 750 mil milhões de euros, anunciado pelo Banco Central Europeu (BCE), será suficiente para garantir baixos custos de financiamento.

“No passado, os juros de países não principais da zona euro beneficiaram da presença do BCE no mercado secundário [de dívida], nomeadamente através dos vários programas de compra acionados”, referiu.

Tendo ainda em conta a “extremamente alta relação entre o desenvolvimento passado do PIB e das receitas do Estado (nomeadamente através dos impostos diretos e indiretos) e, por outro lado, o esperado esforço requerido do Estado em termos de despesa”, o economista antecipa um défice entre 3% e 4% do PIB nas contas públicas.

“Tais desenvolvimentos orçamentais podem implicar uma interrupção e não uma mudança de regime orçamental, como ocorrida algumas vezes no passado”, refere António Afonso, dado que a interrupção “pode não implicar necessariamente um impacto negativo na sustentabilidade das finanças públicas”, quando a paragem for contabilizada.

O professor universitário relembrou que o Conselho Europeu permitiu flexibilidade aos Estados na aplicação das regras orçamentais da União Europeia, de forma a acomodar despesa adicional no atual contexto de crise.