Quatro militares da GNR estão em isolamento — três deles no próprio posto, em Vila do Bispo — depois de uma mulher de nacionalidade italiana lhes cuspir na cara e dizer que estava infetada como novo coronavírus, como forma de resistir à detenção. Os militares vão realizar os testes para a Covid-19 nos próximos dias, mas a mulher e um homem com quem estava foram colocados em liberdade, sem serem rastreados, confirmou fonte desta força de segurança militar ao Observador.

Aconteceu na tarde do passado domingo. A GNR foi chamada a um parque de estacionamento de um supermercado em Budens, freguesia do concelho de Vila do Bispo, por causa de um casal que ali estaria envolvido em agressões físicas. Lá chegados, dois agentes — que usavam máscaras e luvas — encontraram uma mulher com ferimentos na cara, um homem estendido no chão, junto às traseiras de uma autocaravana, e um outro homem de pé, encostado na parte da frente da viatura, explica fonte da GNR.

Os guardas pediram, então, à mulher de 30 anos, visivelmente exaltada e a gritar várias frases em italiano, que se acalmasse e que mantivesse uma distância de segurança de dois metros, por causa da Covid-19. Mas a mulher começou a caminhar em direção aos militares, ao mesmo tempo que, em inglês e entre ofensas, gritava: “Eu já estou infetada com o coronavírus”.

A mulher italiana de 30 anos e o homem belga de 40 foram detidos pela GNR (ESTELA SILVA/EPA)

Continuando a desobedecer às ordens da GNR, a mulher correu até aos militares, tendo agredido um deles. Os dois elementos tentaram imobilizá-la e algemá-la, mas a mulher tentou resistir, pontapeando-os e cuspindo na farda de um deles. Os agentes foram também surpreendidos pelo homem que se encontrava estendido no chão, que se levantou e tentou impedir a detenção da mulher de nacionalidade italiana. Só conseguiram detê-la quando chegaram mais guardas da GNR de Lagos e do posto territorial de Vila do Bispo, entretanto mobilizados para o local.

Também uma ambulância do INEM foi chamada para socorrer o homem de nacionalidade belga que estava estendido no chão — também ele com ferimentos cara. Apesar de recusar inicialmente ser socorrida, a mulher acabou por ser assistida pelos bombeiros, no interior de uma ambulância. Ainda no parque de estacionamento, os militares da GNR informaram os bombeiros que a detida tinha dito que estava infetada com o novo coronavírus, tendo-lhe logo sido medida a febre — que estava em valores normais. 

Mais calma, a italiana acabou por acompanhar os guardas até ao carro onde tinha o seu documento de identificação. Ali, os militares encontraram um saco de plástico com canábis, e aí recomeçaram as agressões, com a mulher a cuspir novamente na cara do mesmo agente. O homem belga de 40 anos, que já tinha sido assistido na ambulância, tornou-se também agressivo, ofendendo e ameaçando de morte os elementos da GNR. Também ele acabou, por isso, por ser detido — estando na posse de canábis. 

Detidos ficaram em liberdade. Guardas vão ser testados para o novo coronavírus

O casal, que, descreve fonte da GNR, se encontrava aparentemente alcoolizado, foi transportado para o Hospital de Lagos, em ambulâncias separadas e cada um acompanhado por dois militares. No hospital, o homem detido voltou a agredir outro militar com pontapés, mantendo sempre e até para com os profissionais de saúde uma postura agressiva. Durante o trajeto de regresso para o posto da GNR de Vila do Bispo, tentou morder os militares. O casal, na posse de cerca de 8,6 gramas de canábis, ficou detido na cela do posto da GNR de Vila do Bispo e foi presente a a primeiro interrogatório judicial no Tribunal de Lagos no dia seguinte.

Os quatro militares envolvidos estão em isolamento, três deles no próprio posto da GNR (ESTELA SILVA/LUSA)

Interrogada pela procuradora, a italiana de 30 anos explicou que estava em Portugal há cerca de dois anos, mas não tinha residência fixa: disse que vivia na sua caravana, com a qual costumava percorrer várias praias do concelho de Vila do Bispo. À GNR, o arguido já tinha explicado que já não ia à sua casa, na Bélgica, há quatro anos e que pernoitava numa casa devoluta junto à praia das Furnas. Ao que esta força de segurança conseguiu apurar, ambos estiveram envolvidos em agressões com uma terceira pessoa. A procuradora, que tomou conhecimento de toda a situação, aplicou a medida de coação mínima, de termo de identidade e residência, aos dois.

Segundo fonte da GNR, a autoridade de saúde foi contactada devido ao contacto físico com uma mulher que se dizia infetada com o novo coronavírus. Os militares foram aconselhados a fazer o teste para a Covid-19, estando agora a aguardar ordens para o realizar.

O Observador questionou a Autoridade Regional de Saúde do Sul para tentar perceber por que razão não se optou também por testar a detida, mas esta entidade remeteu esclarecimentos para quinta-feira. Ao que Observador apurou, os bombeiros que transportaram os detidos não terão, por lapso, informado o hospital que a mulher afirmara que estava infetada. Assim, se a mulher não apresentava sintomas, o profissional terá optado por não acionar os mecanismos para a realização do teste. No entanto, a autoridade de saúde terá sido depois avisada pela GNR. Mais: a procuradora da República que interrogou os suspeitos também terá tomado conhecimento do que aconteceu.

Enquanto, esperam pelos testes e pelos resultados os quatro militares envolvidos estão em isolamento: três deles no próprio posto de Vila do Bispo, de onde não saem e onde só contactam entre eles — e, desta forma, não têm contacto com os familiares, em casa.

Mulher detida na fronteira de Caia com cocaína testa positivo. 14 militares da GNR e 3 inspetores do SEF de quarentena

António Barreira, coordenador da delegação sul da Associação dos Profissionais da Guarda, lamenta o sucedido e, ao Observador, considera “incompreensível que uma pessoa que vive numa caravana fique apenas com Termo de Identidade e Residência”.

Já na semana passada, 14 militares da GNR e três inspetores do SEF ficaram de quarentena depois de uma mulher de nacionalidade brasileira que tentava entrar de carro pela fronteira de Caia, em Elvas, ter sido detida com 5.080 doses de cocaína e, já na prisão, ter testado positivo à Covid-19.