Depois de ter resistido durante dias à emissão de uma ordem de isolamento domiciliário, o governador norte-americano do estado da Georgia finalmente assentiu a essa medida na passada quarta-feira. Porquê agora? Acabou de tomar conhecimento de que pessoas infetadas e assintomáticas podem contagiar terceiros.

A história parece ficcional mas infelizmente é verdadeira. Numa conferência de imprensa televisionada, Brian Kemp disse que estava a “descobri que este vírus está a transmitir-se antes que das pessoas conseguirem ver demonstrar sintomas”. Esta “informação” — que médicos e especialistas de todo o mundo, incluindo nos EUA, têm dito há meses — foi lhe passada por especialistas médicos do estado que governa:

Esses indivíduos [assintomáticos] podiam estar a infetar pessoas antes de se sentirem mal mas só soubemos isso nas últimas 24 horas”, disse ele. […] Isso muda o jogo”.

O jogo de facto mudou com essa informação… Mas mudou há pelo menos quatro meses, já que quando o vírus ainda se encontrava apenas restrito a Wuhan, médicos e cientistas falavam desta característica — que, aliás, é uma das que torna o contágio tão fulminante. O estado de Georgia já é um dos mais afetados pelo vírus.

O médico Anthony S. Fauci, membro principal da task force coronavírus da Casa Branca, fala da transmissão assintomática há mais de dois meses. “No começo não tínhamos certeza se havia infeção assintomática, o que tornaria um surto muito mais amplo do que o que estamos dizendo aqui; agora sabemos com certeza que existem ”, disse o médico a 31 de janeiro.

[As declarações do governador aparecem a partir do minuto 6’53]

Umas semanas depois, numa conferência de imprensa, o mesmo Fauci voltou a falar do assunto: “Estamos a receber relatórios de fontes altamente confiáveis ​​na China — cientistas, investigadores e profissionais de saúde pública que conhecemos há vários anos — que nos dizem: ‘Há doenças assintomáticas, com certeza, e estamos a assistir também a transmissões igualmente assintomáticas. “

O próprio Center for Disease Control (o equivalente à Direção-Geral de Saúde nos EUA) emite desde dia um de março orientações que afirmam que pessoas assintomáticas podem espalhar o novo coronavírus. “Alguma disseminação pode acontecer antes das pessoas mostrem sintomas”, disse essa CDC.

Ora na passada quarta-feira, dois meses depois do primeiro aviso de Fauci, Kemp afirma que só tomou conhecimento desta característica do novo coronavírus “nas últimas 24 horas”.

Este caso é apenas mais um (se bem que o mais gritante) de políticos norte-americanos a demonstrarem que não estão minimamente em sintonia com as autoridades científicas. O presidente Trump, por exemplo, disse no passado domingo que acabara de tomar conhecimento de uma projeção cientifica que dizia que 2,2 milhões de pessoas poderiam morrer nos Estados Unidos se nada fosse feito para mitigar a propagação do vírus. Nessa intervenção, o presidente disse que quando tomou conhecimento desse número tinha sido “primeira vez que” ouvira algo do género.  Acontece que esses dados fazem parte de uma projeção emitida quase duas semanas antes por um modelo do Imperial College of London.