Os valores têm muitos zeros envolvidos: ao todo, mensalmente, o Congresso espanhol — ou Assembleia de deputados — tem estimados em perto de 635.000 euros os custos inerentes ao pagamento de subsídios de deslocação e refeição a deputados espanhóis. Também em Espanha, no Senado gasta-se aproximadamente 505 mil euros só em “extras” de suplementos salariais relativos a atividade presencial e política.

Os suplementos, que estão isentos de tributação, podem ir de 917 euros a 1.921, consoante o local de residência do político for Madrid ou for outra localidade, que implique ter de se deslocar para exercer a sua atividade parlamentar. Problema: mesmo com o Congresso e Senado quase encerrados, apenas com sessões muito esporádicas no Congresso com um número limitado de participantes (o confinamento em Espanha também se aplica aos políticos e deputados, mais intensamente do que em países como Portugal), foi preciso pressão para que os partidos se começassem a entender para a abolição destes suplementos salariais nesta fase.

As críticas foram muitas, a repercussão foi grande e a resposta começa agora a aparecer em bloco na política espanhola. Criticados por continuarem a receber suplementos para deslocações e refeições apesar de em muitos casos estarem confinados em casa a tempo inteiro, políticos, deputados, partidos e grupos parlamentares espanhóis começaram esta quinta-feira a manifestar-se disponíveis para ceder esses subsídios  para o investimento público em saúde em Espanha, perante a pandemia do novo coronavírus que está a devastar o país. Anteriormente, já alguns partidos e políticos haviam sinalizado a intenção de o fazer, mas só agora estão a ser dados passos mais firmes para permitir poupanças com “extras” salariais considerados injustificados face ao recolhimento domiciliário.

A situação em Espanha era esta, na quarta-feira, 1 de abril: no Parlamento Catalão as decisões sobre a renúncia aos subsídios de refeições e deslocações que se somam ao salário base (e que não estão sujeitos a tributação) era deixada a cargo de cada deputado e no Congresso de Deputados — a Assembleia de deputados em Espanha — a questão de suprimir os suplementos salariais nem se colocava, relatava então a estação espanhola Antena 3. O salário base de deputados e senadores em Espanha é muito próximo, na ordem dos três mil euros mensais. A este valor podem acrescer complementos relativos às funções exercidas (um porta-voz ou líder da bancada parlamentar pode não auferir o mesmo do que um outro deputado sem essas funções), além das ajudas de custo resultantes dos gastos inerentes a trabalho presencial.

Algumas críticas terão mesmo deixado políticos espanhóis com as orelhas a arder. Na estação Cuatro, os políticos e deputados espanhóis que em março ainda receberam extras por trabalho parlamentar presencial que está, na sua maioria, suspenso, foram acusados de falta de vergonha. O jornalista e apresentador de televisão do programa “Cuatro al día”, Joaquín Prat Sandberg, não poupou nas palavras: “Como podem pagar suplementos de deslocação quando nem Deus sai de sua casa? Onde comem fora de casa, nesta fase? Se estamos confinados desde meados de março e as pessoas estão a perder os seus trabalhados… não lhes cai a cara de vergonha?!”.

Jose Maria Sanchez Garcia, do Vox, com máscara facial num parlamento espanhol muito pouco preenchido, a 18 de março. As reuniões presenciais de deputados são agora absolutamente excecionais e esporádicas (@ Jose Maria Sanchez Garcia)

A resposta da classe política faz-se agora sentir de forma mais veemente. O primeiro passo foi dado por Odón Elorza, deputado do PSOE — atualmente partido de Governo — eleito pela região de Gipuzkoa e antigo autarca de San Sebastián. Publicamente, e através das redes sociais, Elorza pediu para lhe ser retirado do salário já a partir deste mês de abril (inclusive) os subsídios para deslocação e alimentação, de que não precisa por estar confinado. No anúncio, avançou que abdicava desse extra por “razões de ética”, vincava que era “uma decisão pessoal” e explicava que “já o solicitara à presidente do Congresso [de deputados], Meritxell Batet”, muito antes, “a 14 e 21 de março”.

À boleia do anúncio público do deputado socialista Odón Elorza, deputados do partido catalão independentista e de esquerda CUP, Mireia Vehí e Albert Botran, decidiram também eles anunciar publicamente a proposta de reduções dos seus próprios salários (abolindo os suplementos de viagens e alimentação) para financiar políticas de saúde em Espanha — e a cúpula dos dois partidos, PSOE e CUP, já terá dado mesmo orientações gerais para que os seus deputados e senadores com estes “extras” salariais abdiquem dos suplementos. Para o PSOE, trata-se de “um gesto de solidariedade com os setores mais vulneráveis da política espanhola nestes momentos difíceis”.