A Festa do Cinema Italiano foi um dos vários festivais de cinema que teve de ser cancelado devido à eclosão do Covid-19. Enquanto a crise sanitária não passa e os organizadores não podem marcar uma nova data para a edição deste ano, a 13ª, a Festa “migrou” para a Net, transformando-se numa grande mostra de 114 filmes italianos, entre clássicos e mais antigos, e de produção mais recente. A partir de hoje, sexta-feira, 3 de Abril, todos estes títulos podem ser vistos na Filmin, a plataforma de “streaming” de cinema independente, ao custo de 6,95 euros por mês. De entre esta próspera oferta, selecionámos uma dezena de fitas, umas assinadas por nomes maiores da cinematografia transalpina, outras por realizadores de gerações mais recentes. 

“Os Monstros”

De Dino Risi (1963)

O filme em episódios é uma tradição do cinema e nos 20 “sketches” de “Os Monstros”, Dino Risi, com a ajuda dos geniais Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi, que se desdobram cada um numa série de personagens (incluindo um “travesti” para Gassman), satiriza implacavelmente a sociedade italiana dos anos 60 de alto a baixo: ricos, classe média e pobres, todos levam pela medida grande.

“Ontem, Hoje e Amanhã”

De Vittorio De Sica (1963)

Mais um filme em episódios, três desta vez, balizados entre o cómico e o dramático, protagonizados por Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Ela em três mulheres muito diferentes (uma mãe de família napolitana que vende tabaco na candonga, uma burguesa rica e mimada e uma afável prostituta), ele no marido da primeira, no amante da segunda e num cliente da última.

“Casanova 70”

De Mario Monicelli (1965)

Um dos mestres da comédia “à italiana”, Mario Monicelli goza aqui com a figura do conquistador impenitente, através da personagem de Marcello Mastroianni, que interpreta um garboso e lúbrico militar que só se consegue entusiasmar sexualmente se existe um elemento de perigo quando está a tentar seduzir uma mulher. Também com as lindíssimas Virna Lisi e Marisa Mell.

“Suspiria”

De Dario Argento (1977)

O clássico dos clássicos do cinema de terror italiano, um suprasumo de gótico “gory”, ao som da música demoníaca dos Goblin. Jessica Harper é uma jovem americana que vai fazer um curso de bailado numa afamada escola de Berlim, e descobre que esta funciona como fachada de um sinistro grupo de feiticeiras. Ainda com Joan Bennett, Alida Valli, Udo Kier e Miguel Bosé.

“A Cidade das Mulheres”

De Federico Fellini (1980)

Se este filme tivesse sido feito hoje, Fellini teria incorrido na fúria das hárpias feministas e das bruxas caçadoras de homens do #MeToo (mesmo assim não se livrou de críticas das feministas da altura), Marcello Mastroianni é Snàporaz, um discreto homem de negócios que se vê lançado numa laboriosa fantasia onírica tipicamente felliniana, que mexe com o feminismo, o machismo, as fantasias sexuais e os temores dos homens face às mulheres.

“A Noite de Varennes”

De Ettore Scola (1982)

A recriação da tentativa de fuga da família real francesa, na noite de 20 de Junho de 1791, é o pretexto para Ettore Scola reunir, neste filme histórico, uma série de personagens da época, de um já idoso Casanova (Marcello Mastroianni) a Thomas Paine (Harvey Keitel), misturando-as com outras ficcionais e assim confrontar pontos de vista sobre a Revolução Francesa e as suas consequências

“Reality”

De Matteo Garrone (2012)

Luciano, um vendedor de peixe de Nápoles, decide concorrer ao “Big Brother”. Essa ideia transforma-se numa obsessão inquietante e patética, que vai ter graves consequências sobre a sua vida quotidiana, a sua sanidade, a família e os amigos. Matteo Garrone assina aqui um soberbo filme sobre um homem a quem um “reality show” faz perder a noção da realidade, com um final brilhante de ironia.

“Almas Negras”

De Francesco Munzi (2014)

Três irmãos, três vidas: Luigi é um traficante de droga com ligações internacionais; Rocco é um empresário que beneficiou do dinheiro ilegal de Luigi para se afirmar profissionalmente; e Luciano permaneceu na Calábria natal onde cria gado, para tentar ficar longe dos irmãos e das suas ligações ao submundo. Família e crime caminham de braço dado neste sombrio filme policial.

“Cá Por Casa Tudo Bem”

De Gabriele Muccino (2018)

Os membros de uma grande família, muitos dos quais raramente se encontram, juntam-se para celebrar os 50 anos de casamento da avó e do avô, que se instalaram numa ilha. Mas uma tempestade obriga-os a ficar juntos por mais tempo do que esperavam, começam a surgir as tensões e as desavenças, e a festa estraga-se. Com Stefano Accorsi, Pierfrancesco Favino, Sandra Milo e Stefania Sandrelli.

“Selfie”

De Agostino Ferrente (2019)

Alessandro e Pietro são dois adolescentes que vivem no bairro degradado e problemático de Traiano, em Nápoles, onde o destino de muitos jovens como eles é acabar a militar nas fileiras da Camorra, a Máfia local, e ter uma morte violenta e muito precoce. O realizador Agostino Ferrente pôs estes dois rapazes a filmar o seu dia-a-dia, e as realidades do bairro, com os seus telemóveis, obtendo um documentário singularíssimo.