Depois de, no dia 24 de março, o primeiro-ministro ter dado luz verde à libertação dos dados anonimizados da Covid-19 à comunidade científica — que desde o dia 16 está a fazer este apelo –, os investigadores continuam à espera de receber essas informações e alertam para a falta de ação de alguns organismos. Em entrevista à Rádio Observador, Carlos Oliveira, antigo secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação, refere que “tem havido respostas, mas para aquilo que é solicitado ainda são insuficientes”.

A 16 de março, um conjunto de investigadores e docentes da Universidade do Porto e do Minho enviou uma carta aberta ao Governo e criou uma petição pública a pedir o acesso imediato a dados de doentes suspeitos de Covid-19 para investigação científica, contando já com mais de cinco mil assinaturas. “O apelo lançado foi para que houvesse uma libertação de micro-dados para para a comunidade científica portuguesa melhor poder estudar e, quem sabe a curto prazo, poder ajudar na resolução de questões ligadas com a Covid-19”, explica Carlos Oliveira.

Apesar de as respostas políticas “terem sido dadas”, o antigo secretário de Estado alerta: “Mais de duas semanas depois de contactos e apelos, os dados ainda não estão disponibilizados“.

“O que nos preocupa mais é que há um enorme número de investigadores e cientistas nacionais que poderiam estar a ajudar a Direção-Geral de Saúde e outras entidades numa análise mais fina de dados fundamentais que pudessem, por exemplo, ajudar a determinar cadeias de transmissão, a melhor compreender os sintomas de doentes, tendo acesso aos resultados das análises à Covid-19, para se começarem a perceber efeitos específicos em Portugal de quem faz testes e o tipo de sintomas. Tudo isto não está ainda a acontecer porque os dados não foram libertados para a comunidade científica nacional”, refere Carlos Oliveira.

Segundo os investigadores, a análise destes dados é fundamental para perceber de que forma é que Portugal pode melhorar tanto no combate ao surto do novo coronavírus — através, por exemplo, de soluções de triagem online, que evitem a deslocação dos doentes às urgências — , mas também a um melhor entendimento do impacto que este vírus poderá ter no país.

[Ouça aqui a explicação de Carlos Oliveira à Rádio Observador]

Carlos Oliveira: “Investigadores podiam estar a ajudar” no combate à Covid-19

“É muito importante perceber-se porque é que os dados são fundamentais. O Reino Unido alterou a sua política de combate à Covid-19. Felizmente, não é algo que Portugal precise ou tivesse precisado, mas a partir do momento em que teve uma análises de dados feitas pelo Imperial College que lhes mostravam uma curva dramática e o governo foi, automaticamente, forçado a alterar a forma de ataque”, explica o ex-secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação.

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Quando anunciou a luz verde para os investigadores, António Costa sublinhou que é necessário mobilizar todos os recursos nesta matéria, numa altura em que o Governo “já tem condições para anonimizar todos os dados que serão disponibilizados”. Para Carlos Oliveira, a análise destes dados é essencial: “Sabemos que o país não estava preparado para isto. Uma das primeiras tarefas em que a comunidade científica pode também ajudar é na estruturação destes dados, na sua recolha, na interação com os próprios hospitais, mas também com quem está a realizar os testes. Poderia haver aqui uma ajuda muito grande, até para escalar a capacidade de resposta”.

Decreto do Governo determina a disponibilização dos dados

Esta quinta-feira o Governo decidiu renovar o estado de emergência no país por 15 dias e o decreto publicado com as novas medidas decididas pelo executivo de António Costa aborda também a disponibilização dos dados aos investigadores e cientistas.

A partir de agora, segundo este decreto, todos os dados sobre os portugueses infetados com o novo coronavírus ou pessoas suspeitas que se encontrem na posse da Direção-Geral da Saúde — exceto a identidade dos doentes — vão passar a ser disponibilizados à comunidade científica e tecnológica portuguesa.

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(Artigo atualizado às 14h11 desta sexta-feira com a informação de que o decreto do Governo determina a disponibilização dos dados aos cientistas)