Três dias depois de ter atracado em Nova Iorque para “apoiar no esforço nacional de combate à Covid-19”, o navio-hospital da marina norte-americana USNS Comfort ainda só admitiu 20 pacientes, apesar de ter a bordo mil camas e 12 salas de cirurgia.

A contagem de apenas duas dezenas de pacientes a bordo do USNS Comfort foram avançadas por fontes oficiais ao The New York Times, que dá conta de um desconforto considerável por parte das autoridades locais em relação à prestação daquele navio enviado pelo Pentágono para aquele é, à data, o maior foco do novo coronavírus em todos os EUA.

A partida do USNS Comfort contou com a presença de Donald Trump que, interrompendo de propósito um isolamento de nove dias na Casa Branca, disse à altura: “Os talentosos profissionais médicos que vão navegar no Comfort vão desempenhar um papel essencial para aliviar a sobrecarga dos hospitais na área de Nova Iorque”. À chegada, o USNS Comfort atraiu a atenção de milhares de nova-iorquinos — alguns assistiram ao momento das suas janelas e outros quebraram as regras de confinamento e foram vê-lo mais de perto. Muitos receberam o navio com palmas, entusiasmados com a hipótese de ele vir a socorrer um sistema hospitalar à beira do colapso.

“Honestamente, é uma piada”, disse, sobre os 20 internamentos do USNS Comfort, Michael Dowling, diretor do Northwell Health. Para o homem que chefia aquele que é o maior centro hospitalar de Nova Iorque, com um total de 23 hospitais a cargo, aquela resposta não chega: “Toda a gente diz ‘obrigado por terem vindo e por terem aberto os vossos corredores’. Mas nós estamos numa crise, isto é um campo de batalha.”

O contraste entre o movimento nos hospitais nova-iorquinos (à beira do colapso, chega até a haver falta de sacos para cadáveres, depois de esta quinta-feira os EUA terem registado o recorde de número de mortes em 24 horas num só país) e daquele navio-hospital deve-se ao facto de este último não estar disponível para infetados com o novo coronavírus.

A ideia é, pelo contrário, a de receber doentes que não estejam infetados, de maneira a aliviar a pressão sobre os hospitais de Nova Iorque — e a de evitar que os tripulantes do navio sejam infetados com o novo coronavírus, potencialmente criando situações como a de outras embarcações (na maioria cruzeiros turísticos) onde o novo coronavírus se espalhou rapidamente. Para evitar esse mesmo cenário, os 1.200 tripulantes do navio foram isolados durante 15 dias antes da partida para Nova Iorque, de maneira a garantir que nenhum estava infetado.

“Vamos montar uma bolha à volta deste navio para garantir que fazemos tudo o que for possível para manter o vírus fora”, disse ao The New York Times, numa entrevista antes do atraque em Nova Iorque, o capitão Joseph O’Brien.

“É bastante ridículo”, comentou também Michael Dowling àquele jornal. “Se não nos vão ajudar precisamente com as pessoas para as quais nós precisamos de ajuda, qual é o propósito disto?”