Sinceramente, poucos estariam à espera, mas o regresso aconteceu mesmo, ou pelo menos um sucedâneo para aliviar o efeito do isolamento — desde que se lembre de afastar os miúdos da sala, por uma questão de precaução extra porque, para mais um pouco de honestidade (agora da nossa parte), o protagonista da noite de ontem voltou para chafurdar com gosto nos sarilhos.

Foi este sábado, com as audiências maioritariamente sujeitas a quarentena em suas casas, lembra o The New York Times, e enquanto algumas delas estariam a seguir a maratona de seis horas Laugh Aid (via YouTube, Facebook, ou Twitter, destinado ao apoio a artistas em risco), que o humorista Louis C.K divulgou “Sincerely”, gravado no Warner Theater antes da pandemia de Covid-19.

Em formato streaming, é o seu primeiro especial partilhado desde essa “enorme carga de trabalhos” que lhe trouxe a confissão de conduta sexual imprópria, corria o ano de 2017, e que é devidamente mencionada no conteúdo, não fosse ele toda uma ida a este incómodo baú de memórias recentes. Foi lançado no seu site e começa com uma ovação estrondosa do público de Washington DC. Depois, nada como evitar perdas de tempo e atalhar caminho para a controvérsia. Entretanto, se conseguiu assistir ao espetáculo do humorista em maio de 2019 em Portugal, nada disto ou muito pouco lhe será novo.

Como é que foram os vossos dois últimos anos? Como é que foi o vosso 2018 e 2019, pessoal? Mais alguém se meteu numa enorme carga de trabalhos?”, perguntou ao público.

C.K. — que diz que embarcou numa digressão internacional porque “achei que devia abandonar o país, que era uma boa ideia. Até teria abandonado o planeta se houvesse um outro” — continua a falar sobre a sua vida no rescaldo das notícias de que se masturbava em frente a mulheres, sendo então apanhado pela bola de neve do #MeToo. “Aprendi imenso. Aprendi a comer sozinho num restaurante com as pessoas a esticarem-me o dedo do meio do outro lado da sala”.

Falámos em masturbação em frente a mulheres? — sem o seu consentimento, entenda-se. O reincidente dá-se ao trabalho de explicar (provavelmente para arranjar mais uma carga deles). “Gosto de me vir, e não gosto de estar sozinho, é tudo o que vos posso dizer. Sinto-me sozinho, é triste. Gosto de companhia. Gosto de partilhar. E sou bom nisso, também. Se vocês forem bons em malabarismo, não vão querer fazê-lo sem público. Vão chamar uns amigos para os surpreender”.

Génio e diabo: será que Louis CK nos ensinou alguma coisa quando esteve em Lisboa?

O profano incorrigível, com a habitual camisola preta em palco, seguirá estrada fora por temas tão sensíveis como necrofilia, pedofilia, terrorismo, deficientes físicos, Holocausto e mais uns quantos tópicos — se é que ficou algum de fora da lista de controvérsias, estereótipos e demonstrações de misoginia. Ah, falta retomar a ideia do consentimento.

Se querem fazê-lo com alguém, têm que perguntar primeiro. Mas se disserem que sim, não digam logo “uau!”. Têm que ir verificando isso, penso que é isso que diria. Não é sempre claro o que as pessoas sentem. Os homens são ensinados a garantir que a mulher está bem. O problema é que as mulheres sabem como parecer que estão bem quando não estão.”

A propósito do lançamento deste especial e do timing em que chega, C.K. enviara um email aos seus fãs descrevendo a existência de dois tipos de pessoas: as que encaram uma fase como esta com uma gargalhada e aqueles que preferem fazer face aos desafios com sobriedade. É claro que o programa partilhado é essencialmente para os primeiros mas em qualquer dos casos, deixou uma nota válida para ambos: “Não pensem que é grátis”. São 7,99 dólares, já agora. Pouco mais de sete euros.