O presidente do comité de saúde de Nova Iorque avançou esta segunda-feira que as autoridades da cidade estariam a considerar criar valas comuns temporárias num dos parques da cidade para enterrar as vítimas do novo coronavírus, caso as morgues atingissem a sua capacidade máxima, mas terminou o dia a desmentir esta informação. Entre um momento e outro gerou uma enorme polémica nas redes sociais.

Mark Levine, presidente do comité de saúde de Nova Iorque e membro do Conselho da Cidade de Nova York, afirmou na sua conta pessoal do Twitter que a Medicina Legal da cidade iria proceder a “enterros temporários” para fazer face à possível sobrelotação das morgues, o que suscitou o pânico entre os nova-iorquinos. “Isto provavelmente será feito num parque da cidade para enterros (sim, leu bem). As valas serão cavadas para por 10 caixões em linha. Será feito de forma digna, ordenada e temporária. Mas será difícil para os nova-iorquinos aguentarem”, escreveu.

Reforçando a necessidade de criar uma vala comum para os mortos, o representante do 7.º distrito do norte de Manhattan afirmou que “os cemitérios não conseguem lidar com o número de pedidos de enterro e estão a recusar a maioria”. E sacou de uma frase a fazer lembrar o Marquês de Pombal após o Terramoto de 1755, quando disse: “[É preciso] Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.

Nada importa mais nesta crise do que salvar os vivos. Mas temos de enfrentar a terrível realidade de que também precisamos de mais recursos para gerir os nossos mortos”, disse Levine.

Algumas horas depois, face às críticas que surgiram às suas declarações no Twitter, Levine fez uma “esclarecimento crítico” sobre a criação das valas comuns, admitindo que esta medida é apenas uma medida de contingência. “O plano de enterro temporário num parque da cidade ou outra propriedade pública é uma contingência, que pode ser evitada se o número de mortes diminuir significativamente ou se encontrarmos uma forma de garantir espaço adicional para as urnas refrigeradas. Devia ter sido mais claro quanto a isso”, confessou.

Na semana passada, noticiou o The New York Times, a Medicina Legal de Nova Iorque enviou 80 urnas refrigeradas para os hospitais da cidade, depois de estes terem alertado para a sobrelotação das morgues. Estas urnas fazem parte do “Plano de Surto de Gripe Pandémica para Mortes Internas e Externas no Hospital”, que a Medicina Legal tem usado para controlar o aumento de mortes causadas pelo novo coronavírus.

E em cima das declarações anteriores, ainda durante esta segunda-feira Mark Levine acabou por admitir que – após ter falado com vários membros do governo da cidade – recebeu, afinal, uma “garantia inequívoca de que não haverá enterros nos parques de Nova Iorque”. No entanto, acrescentou: “Todos declararam claramente que, se o enterro temporário for necessário, será feito em Hart Island”. Levine já tinha apontado um parque na cidade ou a ilha de Hart, no Bronx, como possíveis “morgues” temporárias para os corpos das vítimas.

Numa entrevista, Levine afirmou, segundo o New York Times, que o plano [dos enterros temporários] “não está numa fase hipotética” e acrescentou que está a “avançar”, aparentemente contrariando uma vez mais as suas declarações no Twitter.

Segundo o The New York Times, também o presidente Bill de Blasio assumiu que esta hipótese estaria em cima da mesa, apesar de afirmar que este plano de contingência ainda não foi implementado.

Se precisarmos de fazer enterros temporários para podermos ultrapassar esta crise, e depois determinar com cada família o destino final dos corpos, teremos essa capacidade”, acrescentou.

Ao ser questionado sobre a capacidade da cidade para acondicionar as vítimas da Covid-19, Bill de Blasio confessou não querer “entrar em detalhes”, mas garantiu que Nova Iorque tem a capacidade necessária.

A Medicina Legal afirmou que está a considerar todas as possibilidades, mas garantiu que não foi tomada ainda nenhuma decisão, uma vez que a cidade ainda tem capacidade para enterrar as vítimas do novo coronavírus. Já o governador do estado de Nova Iorque, Andrew M. Cuomo, afirma que a possibilidade de criar valas comuns temporárias é apenas um “rumor”.

Aja Worthy Davis, porta-voz da Medicina Legal de Nova Iorque, disse que, nos últimos dias, o número de mortes na cidade triplicou, quando comparado com a média de um dia “normal”, tanto nos hospitais, sobrelotando as morgues, como nas residências.