A Câmara de Espinho anunciou esta quarta-feira a realização de 420 testes em utentes e funcionários dos cinco lares do concelho, mas, sentindo o município estar a ser discriminado, reclama “critérios claros” na distribuição dos materiais para combater a Covid-19.

Em declarações à Lusa, o presidente da autarquia começou por realçar que, em termos de saúde, Espinho está sob a tutela da Administração Regional de Saúde do Norte, mas, em termos de segurança social, depende das decisões emitidas por Aveiro.

“Não podemos ser discriminados por estar na fronteira e o que se vê é que, apesar de o Governo ter incluído Aveiro entre os distritos prioritários para realização de testes em lares, nós ainda não recebemos contacto nenhum para esse efeito e muito menos o material”, afirmou Joaquim Pinto Moreira.

Se o autarca social-democrata anuncia a realização, “com a maior brevidade possível”, de um rastreio geral em três lares locais protocolados com o Estado, um privado e ainda o centro de dia da Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades, é porque o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho (CHVNGE) “teve sensibilidade para isso”.

O diagnóstico vai envolver 260 seniores e 160 funcionários, e realizar-se-á nas próprias instituições, “mediante prescrição pelos agrupamentos de centros de saúde” e após formação técnica às equipas desses estabelecimentos, pelo próprio CHVNGE, que emitirá também os resultados dos exames.

Pinto Moreira defendeu, contudo, que relativamente a testes, ventiladores ou equipamento de proteção individual (EPI) para clínicos, bombeiros, policiais, equipas sociais e voluntários, “ninguém consegue compreender o critério de distribuição adotado pelo Governo – se é que ele existe – e é preciso haver uma clarificação rigorosa” desses procedimentos.

O caso dos ventiladores é particularmente evidente. Dos 144 que chegaram a Portugal, 78 foram para Lisboa e só 63 vieram para o Porto, quando a realidade é que a região Norte tem precisamente o dobro dos infetados da capital”, criticou o autarca.

Ao nível de máscaras, luvas, fatos e outro equipamento de proteção, “é uma absoluta vergonha, uma autêntica desfaçatez que, neste momento tão difícil para o país, o Governo tente enganar de forma aviltante e despudorada as populações, dizendo que nada falta desse material em lado nenhum, quando estamos sempre a receber chamadas com esses pedidos, por parte de centros de saúde, unidades de saúde familiares, hospitais, instituições particulares de solidariedade social, voluntários, paróquias, etc.”, disse.

Pinto Moreira admite a hipótese de que esse material possa efetivamente existir e estar apenas a ser mal distribuído, mas, nesse caso, recomenda: “Se de facto a Segurança Social e os ministérios da Saúde e da Administração Interna recebem esse material por avião e depois não conseguem distribuí-lo, então que o façam chegar às câmaras municipais, que nós temos capacidade logística para o entregar rapidamente a quem de facto o merece”.

As preocupações do autarca estão refletidas num documento que a Comissão Municipal de Proteção Civil de Espinho tornou público e que, abordando as dificuldades enfrentadas no combate à pandemia de Covid-19, já foi remetido ao Governo, com cópia a várias tutelas.

A comissão nota que, perante “a fraca resposta do mercado e da Segurança Social”, a autarquia já vem colaborando com as estruturas residenciais para seniores “no desenvolvimento dos seus planos de contingência e na disponibilização de alguns EPI”, tendo mesmo instalado 204 camas na Nave Desportiva Polivalente para o caso de ser necessário proceder à “evacuação massiva” desses lares.

A comissão quer, contudo, que sejam adotadas pelas autoridades “medidas com caráter de urgência no sentido de solucionar as preocupações legítimas das instituições locais que têm à sua responsabilidade a prestação de cuidados a idosos”. Nesse pedido, a prioridade é “o acesso a EPI, a testes rápidos de despistagem contínua para os cuidadores, e a testes PCR [reação em cadeia da polimerase] para cuidadores e idosos com sintomas da infeção”.

O novo coronavírus responsável pela presente pandemia foi detetado na China em dezembro de 2019 e já infetou mais de 1,4 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais mais de 80.000 morreram.

Em Portugal, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 2 de março, o último balanço da Direção-Geral da Saúde indicava 345 óbitos entre 12.442 infeções confirmadas.