Felipe Gouveia (texto) e Yefferson Suárez (vídeo)

O coronavírus introduziu novos desafios aos comerciantes lusos e aos venezuelanos, que já habituados à falta de água, luz, gás e gasolina, agora passam mais tempo em família, têm mais cuidados com a higiene e compram em maior quantidade.

“Estamos tratando de sobreviver. Não sabemos quando isto terminará. Tratando de manter-nos seguros. Mudou tudo, porque o nosso estilo de vida mudou desde há um mês”, explicou à Agência Lusa António da Silva, 58 anos.

Natural do Estreito de Câmara de Lobos, Madeira, António da Silva está radicado em Caracas, na Venezuela, desde há 42 anos, onde é sócio do Supermercado Maturín.

Trabalhamos quando se pode, abrimos quando se pode e as pessoas também estão comprando o que podem“, disse, admitindo que muitas coisas subiram de preço.

“Sabemos como é a inflação na Venezuela. Hoje está a um preço e amanhã a outro”, disse salientando que, com o confinamento, as pessoas compram mais “farinhas, massas, óleo, tudo o que são produtos do cabaz básico”, mas também “álcool e vinagre para ajudar” a previr o coronavírus, responsável pela pandemia Covid-19.

Chegar diariamente ao supermercado “não é fácil” porque a circulação está condicionada.

Temos o problema de que não há gasolina, de que não podemos sair à hora que queremos e temos que regressar mais cedo. Estamos abertos até às quatro horas da tarde, porque a partir das cinco já não podemos estar a circular”, disse.

António vê diariamente as notícias e sabe que “a pandemia não afeta apenas Portugal, nem a Venezuela, mas todos os países do mundo” e tem causado muita incerteza nos comerciantes, admitindo que poderão passar dois ou três meses até a situação melhorar. “Que todos fiquem em casa, que usem máscaras. Eu só saio porque tenho de abrir o meu negócio, que é de comida“, frisou.

Por outro lado, Jaime Graterol, comerciante e cliente do supermercado considera que pessoas devem adaptar-se. “Não é que eu queira que mude ou não. Tudo mudou, inclusive os preços, e isso é normal, porque não há gasolina“, frisou.

No supermercado comprou “atum e sardinhas enlatadas, sumos, o essencial” e diz que o seu estabelecimento está “abastecido, tem frutos, de tudo, o que é preciso ter é dinheiro para poder pagar“.

“Que todos se cuidem. Que fiquem em casa. Que se protejam. Que lavem as mãos, que troquem de roupa ao chegar. Cuidemo-nos uns aos outros”, pediu.

A Covid-19, mudou também a vida de Cláudia Kisene, terapeuta de linguagem, que ficou sem pacientes e sem trabalho.

“Eu ensino os meninos a falar melhor. Tenho que tocá-los, que fazer exercício e não posso fazer isso pela Internet. A primeira mudança foi laboral. O segundo, a dinâmica familiar, estar com os filhos em casa e planificar rotinas para que lhes seja mais fácil não estarem no colégio. E o terceiro, é que apenas faço compras uma vez à por semana. Para proteger-nos e sair o menos possível, três ou quatro coisas de cada produto”, disse.

O abastecimento de víveres, está na mesma. O que há menos “são os frutos e as verduras porque vêm do interior (do país) e às vezes o acesso à cidade (Caracas) está bloqueado ou não há gasolina”.

Cláudia gosta de comprar naquele supermercado de portugueses porque consegue o que mais procura e porque “tem mantido os preços”, que “noutros sítios subiram muitíssimo”.

Vários comerciantes estão a usar o Instagram para oferecer combinações de produtos a preços acessíveis e que podem ser comprados sem sair de casa. “O delivery vai provocar uma competência de preços e as pessoas vão gastar onde o seu dinheiro vale mais”, frisou.

Ao concluir recomendou às pessoas que mantenham a calma, que tenham muita fé porque “Deus nos está a permitir que nos reencontremos connosco mesmos, com a família. Também que nos aproximemos mais de Deus”, disse.

Na Venezuela, as autoridades oficiais indicaram a existência de 165 infetados no país, com o registo de sete vítimas mortais, mas os dados têm sido contestados por analistas, que questionam os números indicados por Caracas.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, já infetou cerca de 1,4 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 80 mil. Dos casos de infeção, cerca de 260 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

O continente europeu, com cerca de 735 mil infetados e mais de 57 mil mortos, é aquele onde se regista o maior número de casos, e a Itália é o país do mundo com mais vítimas mortais, contabilizando 17.127 óbitos em 135.586 casos confirmados esta quarta-feira.

A Espanha é o segundo país com maior número de mortes, registando 13.798 mortos, entre 140.510 casos de infeção confirmados até hoje, enquanto os Estados Unidos, com 12.021 mortos, são o que contabiliza mais infetados (382.256).

A China, sem contar com os territórios de Hong Kong e Macau, conta com 81.740 casos e regista 3.331 mortes. As autoridades chinesas anunciaram esta quarta-feira 32 novos casos, todos oriundos do exterior, e pela primeira vez desde janeiro não reportou mortes.

Além de Itália, Espanha, Estados Unidos e China, os países mais afetados são França, com 10.328 mortos (78.167 casos), Reino Unido, 6.159 mortos (55.242 casos), Irão, com 3.603 mortos (58.226 casos), e Alemanha, com 1.607 mortes (99.225 casos).

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 345 mortes, mais 34 do que na véspera (+10,9%), e 12.442 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 712 em relação a segunda-feira (+6%). Dos infetados, 1.180 estão internados, 271 dos quais em unidades de cuidados intensivos, e há 184 doentes que já recuperaram.