A Associação Bagos d’Ouro está a ajudar a combater o “isolamento digital” sentido por crianças e jovens no Douro, após o encerramento das escolas devido à Covid-19, colmatando a falta de computadores e acesso à Internet.

“Nesta altura a desvantagem social sente-se ainda mais”, afirmou esta quinta-feira à agência Lusa Mafalda Ferrão, coordenadora social da Bagos d’Ouro.

Criada em 2010, a associação sem fins lucrativos tem como missão apoiar crianças e jovens carenciados do Douro no seu percurso escolar.

Segundo Mafalda Ferrão, neste momento a organização trabalha com 166 crianças e jovens, de 81 famílias espalhadas pelos concelhos de São João da Pesqueira, Tabuaço e Armamar, no distrito de Viseu, e Sabrosa, Alijó e Murça, no distrito de Vila Real.

A pandemia levou ao encerramento físico das escolas e, por causa disso, a Bagos d’Ouro reforçou o seu apoio às famílias, ajudando a combater o “isolamento digital” nesta região, já por si “isolada e pobre”. O objetivo foi fazer a ligação entre os professores e as crianças e jovens.

Tínhamos 46% das crianças sem Internet ou computador. Conseguimos resolver a maioria das prioridades até ao 3.º ciclo. Só nos faltam quatro computadores”, afirmou a coordenadora.

Com o encerramento físico das escolas, as atividades passaram para o online. A associação ajudou a colmatar a falta de equipamentos e acesso à Internet, através da angariação de computadores e da instalação de serviços de telecomunicações.

Foi instalada Internet na casa de 11 crianças e jovens e foram angariados sete computadores para os alunos, permitindo que, desta forma, já consigam estar em contacto com os professores e assistir às aulas à distância.

“Temos todas as nossas crianças online, nem que seja através de um telemóvel, um tablet ou um computador”, referiu.

A responsável descreveu um trabalho no terreno que teve de desenrascar alternativas em aldeias isoladas e sem rede, e que, em alguns casos, até passaram por colocar routers em telhados.

A equipa de terreno da associação ajudou também a fazer chegar as fichas escolares aos alunos, articulando-se com as juntas de freguesia, câmaras ou outros parceiros locais.

Entretanto, foi anunciada a telescola para os alunos dos 1.º e 2.º ciclos e, “se tivéssemos que pôr todos os alunos mais pequenos online, ainda nos faltariam mais 14 computadores”, referiu Mafalda Ferrão.

Depois de ultrapassada esta barreira digital, o grande desafio agora é a “estabilidade emocional” para que as crianças e os jovens consigam manter-se ativos nesta altura de confinamento e, sobretudo, manter interações saudáveis nos ambientes familiares menos estruturados.

A associação conta com 45 voluntários, dispersos por diversas áreas, entre os quais seis psicólogos. Os contactos que eram feitos regularmente nas escolas são agora mantidos por videoconferência.

A Bagos d’Ouro intensificou estes contactos e envolveu mais as famílias. Ganhamos imenso porque passamos e estar juntos semanalmente online. Encontramos aqui uma partilha muito maior, um envolvimento dos pais também maior e, sobretudo, um espaço onde eles também podem partilhar”, referiu.

A equipa tem sensibilizado as famílias para a Covid-19, tem ajudado na organização da rotina de trabalho das crianças e no apoio escolar, e faz o levantamento das necessidades e a angariação dos materiais necessários.

Na rede social Facebook foi criado um grupo onde são colocados desafios para os filhos e os pais fazerem juntos, desde exercício físico à leitura.

Para os mais carenciados, as comunidades onde estão envolvidos estão a dar apoio, como por exemplo, as refeições para os alunos que têm subsídio escolar.

No entanto, segundo Mafalda Ferrão, as famílias estão apreensivas por causa dos empregos. É que, se o trabalho agrícola se vai mantendo, no caso do turismo a atividade está praticamente parada e estas são, no Douro, as principais fontes de rendimento.

“Estamos muito preocupados com as situações de desemprego que se avizinham numa comunidade já com empregos tão precários”, apontou.

A associação não dá apoio financeiro, mas pode ajudar com bens alimentares e articular respostas com outros parceiros, como a Segurança Social.

Em Portugal, segundo o balanço feito na quarta-feira pela Direção-Geral da Saúde, há 380 mortes, mais 35 do que na véspera (+10,1%), e 13.141 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 699 em relação a terça-feira (+5,6%).