São cada vez mais frequentes as histórias de mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar. Que passam meses, anos, a tentar. Sem sucesso. Que recorrem a inúmeros tratamentos. Alguns, nunca chegam a ser bem-sucedidos. A vida vai adiando planos e, por vezes, os planos revelam-se impossíveis. Em Portugal, o denominador comum para estas dificuldades parece, cada vez mais, ser a idade.

As estatísticas assim o confirmam: as mulheres portuguesas cada vez têm filhos mais tarde. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, entre 2013 e 2018, a idade média das mulheres aquando o nascimento de um filho passou de 30,4 anos para 34,1, enquanto a idade média ao nascimento do primeiro filho aumentou de 28,9 anos para 29,8. Já de acordo com os dados mais recentes do Eurostat, cerca de 49,5% das mulheres portuguesas, em 2017, foi mãe pela primeira vez entre os 30 e 39 anos, acima da média da União Europeia. Nesse mesmo ano, Portugal teve a sexta maior taxa de mulheres que têm o primeiro filho depois dos 40 anos de idade. “Hoje em dia as mulheres cada vez mais adiam a maternidade. Naturalmente, isto tem as suas consequências”, resume Tatiana Semenova, especialista em fertilidade do IVI Lisboa. E acrescenta: “A idade ideal para uma mulher engravidar é a década entre os 20 e os 30 anos. Até aos 35 é aceitável. A partir desta idade a reserva ovárica começa a diminuir de tal forma que, muitas vezes, pode já ser tarde de mais”, acrescenta a médica.

Quais os riscos de adiar a maternidade?

Nem sempre as mulheres têm noção das consequências de tentar engravidar mais tarde. A fisiologia reprodutiva da mulher é bastante diferente da do homem e tem as suas limitações. A reserva ovárica – a quantidade de óvulos que a mulher tem nos seus ovários – é limitada. A mulher já nasce com todos esses ovócitos (termo científico para óvulos) produzidos. A partir daí a reserva começa a reduzir, quantitativa e qualitativamente. Inicialmente, de forma gradual, mas a partir dos 35 anos há uma aceleração deste processo.

“É muito importante que as mulheres tenham consciência que o relógio biológico feminino não para e não acompanha os projetos de vida das mulheres dos tempos que correm”, explica Tatiana Semenova. Ou seja, as horas que este relógio marca muitas vezes não coincidem com os planos de vida de cada mulher, sobretudo da mulher moderna, que frequentemente privilegia a carreira e a estabilidade financeira, face ao projeto da maternidade. “Se as mulheres estiverem informadas podem prevenir-se. A principal questão não é qual a altura certa para engravidar, essa decisão é individual e deve ser respeitada. Mas é importante a mulher saber que, se por alguma razão, seja profissional ou pessoal, quiser adiar a maternidade, isso pode implicar mais dificuldades na concretização desse projeto.” Só tendo consciência disto a mulher procurará soluções para aumentar a probabilidade de engravidar no futuro.

Tatiana Semenova, especialista em fertilidade do IVI Lisboa

Como aumentar a probabilidade de uma gravidez?

A resposta mais simples seria: não adiar. Mas a verdade é que esta é uma resposta pouco realista. Assim, seria prudente acautelar o futuro, e a vitrificação de óvulos pode ser a solução.

Segundo a especialista do IVI, deveria caber ao médico de família ou ao ginecologista, que faz vigilância de rotina da mulher, o cuidado de alertar para esta realidade: “A mulher tem todo o direito de decidir quando e se quer ter filhos, mas se esse plano faz parte da sua vida, então deve estar informada sobre a influência da idade no seu potencial reprodutivo e que mais à frente na vida pode ter maior dificuldade de concretizar este projeto. Esta conversa ainda não é tão frequente como deveria ser.”

Mas então quando é que a possibilidade de engravidar deve começar a ser uma preocupação para a mulher? Tatiana Semenova não tem dúvidas: entre os 25 e os 35 anos, altura em que a reserva ovárica ainda é, na maioria dos casos, ótima quer em termos de quantidade, quer em termos de qualidade.

O que é a vitrificação de óvulos?

Desenvolvida no Japão em 2005, a vitrificação de óvulos é uma técnica de congelação rápida, utilizada atualmente para preservação da fertilidade. É um processo de solidificação no qual os óvulos são tratados com substâncias crioprotetoras e imersos em nitrogénio líquido a uma temperatura de -196°.

Deve ponderar a vitrificação de óvulos se…

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  • Deseja ter filhos, mas não num futuro próximo
  • Tem uma doença oncológica (nestes casos o IVI faz a preservação gratuitamente)
  • Tem uma doença não oncológica, mas que exige tratamentos gonadotóxicos
  • Tem endometriose e vai submeter-se a cirurgias ováricas
  • Tem alteração genética que pode dificultar a gravidez
  • Sofre de doenças autoimunes com necessidade de medicação agressiva

Os óvulos recolhidos – idealmente entre 15 a 20 – poderão manter-se criopreservados durante um período de cinco anos, renovável por outros cinco anos.

O IVI – Instituto Valenciano de Infertilidade – que desde a sua fundação, em 1990, já ajudou a nascer 200 mil bebés – foi a primeira unidade médica a nível mundial a utilizar esta técnica de vitrificação. Face à técnica utilizada anteriormente (congelação lenta), a vitrificação soma uma maior taxa de sucesso: a taxa de sobrevivência de óvulos na descongelação com esta técnica é de cerca de 85-90%.

É perigoso vitrificar óvulos?

Não. A vitrificação de óvulos é um tratamento relativamente rápido e simples. Primeiro é necessário estimular os ovários da mulher para que neles amadureçam vários ovócitos ao mesmo tempo e não só um, como acontece no ciclo natural. “Isto faz-se durante 10 a 12 dias, através de injeções, simples, na barriga, com agulhas pequenas semelhantes às que os diabéticos usam”, explica Tatiana Semenova. Em simultâneo são feitos controlos ecográficos e analíticos. Na fase final é feita a extração de óvulos, uma intervenção realizada com sedação, que dura entre 10 a 15 minutos. E depois guardam-se esses óvulos, durante um prazo máximo de dez anos, segundo a lei portuguesa.

Quando a mulher decidir que chegou o momento de tentar engravidar, deve tentar fazê-lo naturalmente. Mas se isso não for possível, sabe que tem um plano B, uma espécie de “seguro” que pode ajudar a concretizar o seu plano. Se a mulher não vier a necessitar dos ovócitos que congelou – porque desistiu do plano de engravidar ou porque conseguiu engravidar naturalmente – pode doá-los a outras mulheres, à ciência ou ainda pedir a sua eliminação, sendo estas as opções previstas na lei.

Um método de sucesso

Ao contrário do que se possa pensar, a fertilidade da espécie humana é relativamente baixa: a probabilidade de uma mulher jovem e saudável de engravidar de forma natural é de 20 a 25% por cada ciclo. A taxa de sucesso no tratamento de fertilização in vitro (FIV), ronda os 35 a 45%.

Um estudo recente do grupo IVI demonstra que a probabilidade de alcançar sucesso num futuro tratamento FIV é acima de 90% quando são utilizados óvulos vitrificados na idade abaixo dos 35 anos. Se a mulher tiver mais de 35 anos na altura de colheita de ovócitos, esta taxa desce para 50%. “Tem a ver com a qualidade do ovócito – o ovócito de uma mulher de 40 anos também tem 40 anos”, explica a médica do IVI, sublinhando, no entanto, que a congelação de ovócitos não significa que a mulher pode adiar eternamente o momento da sua gravidez. O organismo continua a envelhecer e com a idade aumenta a possibilidade de doenças crónicas, tais como, por exemplo, a diabetes e a hipertensão.

A solução é, remata Tatiana Semenova, ter uma atitude preventiva em relação ao tema de fertilidade e ver “a vitrificação de ovócitos como uma espécie de seguro – se a mulher precisar, tem.”