“Temos o dever de pedir explicações aos que nos estrangularam”. Como conta o El Mundo, a frase é da escritora chinesa Fang Fang, que a escreveu no seu diário sobre a sua quarentena em Wuhan, na China, onde foi descoberto pela primeira vez o novo coronavírus. A escritora já foi apelidada como a “Consciência de Wuhan” pelas histórias pessoais que contou sobre os mais de “dois meses trancados em casas” na região.

Foi a 23 de janeiro que Fang Fang começou a escrever um diário sobre a ansiedade e dor que viveu. Como escreve Lucas de La Cal, o correspondente do El Mundo em Pequim, os textos da escritora tornaram-se “um antídoto para o dilúvio de positividade enganosa e heróis da propaganda chinesa”. Fang Fang escreveu “antes de qualquer outra pessoa, sobre os médicos que morreram na linha de frente e os que foram silenciados por relatar a rara pneumonia que estava a espalhar-se. Apontou aqueles que ocultaram a verdade e retrataram o sofrimento de um povo”.

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No primeiro artigo, Fang Fang questionava: “Quantas pessoas estão a morrer em Wuhan? Até agora, ninguém assumiu responsabilidades”, criticava a 25 de janeiro. Inicialmente, as histórias desta escritora eram partilhada no WeChat, o equivalente chinês do WhatsApp. Contudo, o grupo no qual punha os textos, foi banido. No Weibo, o equivalente chinês do Twitter, Fang Fang foi igualmente censurada.

Sinto-me como um pássaro assustado. Não sei mais o que posso e o que não posso dizer. Quando se trata de algo tão importante como a luta contra esta epidemia, estou a cooperar plenamente com o Governo e a obedecer a todos os seus slogans. […] Não é suficiente?”, desabafou Fang Fang.

Contudo, as história de Fang Fang foram sendo cada vez mais conhecidas com o propagar da pandemia. Ganhou seguidores, mas também ganhou críticas. Num jornal do país, um oficial do exército chinês acusou-a: “Não pensa no país e tentar espalhar informações negativas”. Não resultou muito. Quando se soube que tinha morrido Li Wenliang, um médico que denunciou a existência da Covid-19, Fang Fang voltou a criticar a censura no país. “Caros censores da Internet: têm de deixar o povo de Wuhan falar. Se não nos permitirem expressar as nossas angústias, reclamações ou reflexões, querem que fiquemos realmente loucos?”, desabafou.

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Atualmente, como refere o mesmo jornal, apesar de a normalidade estar a ser reposta gradualmente na região de Wuhan, Fang Fang continua em casa.