A resposta do Bloco de Esquerda ao primeiro-ministro não tardou. Terminada a era da “geringonça”, António Costa desafiou os antigos parceiros parlamentares para não faltarem com o apoio de outro tempo, agora que a crise provocada pela pandemia já aperta. “Ficaria muito desiludido se só pudesse contar com BE e PCP nas vacas gordas”, disse Costa. “Será que esse tempo alguma vez existiu?”, devolve-lhe Catarina Martins que avisa que o seu partido “não aceitou austeridade me 2011 e não aceitará em 2021”.

António Costa pediu um posicionamento da esquerda à sua esquerda e o Bloco já veio traçar o seu roteiro para os tempos de crise económica e social. Há “doi perigos”, diz a líder do BE. Um deles é o “cansaço com as medidas de contenção” que, por si só, já exige mais apoio social e combate aos abusos laborais”. O outro “é o do regresso à lógica da austeridade. A União Europeia já disse que flexibiliza agora, mas vai exigir cortes no futuro”, diz a Catarina Martins numa mensagem de vídeo gravada.

António Costa: “Ficaria muito desiludido se só pudesse contar com BE e PCP nas vacas gordas”

“António Costa fala no fim do tempo das vacas gordas, mas será que ele alguma vez existiu?”, questiona referindo-se à declaração do primeiro-ministro na entrevista que a Lusa publicou este sábado. “A lógica é sempre da falhada austeridade da troika. Quando a economia está mal, o Estado também corta. esse é um erro tremendo, cortar nos salários, nas pensões, nos serviços públicos, no investimento”, argumenta. O caminho a seguir, defende, é “puxar pela economia”, “proteger os serviços públicos e um investimento público contracíclico”.

“É para isto que o Bloco está disponível”, baliza a líder do partido na sua resposta a Costa e até citou o livro de um antigo secretário de Estado Emanuel dos Santos: “Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental”. Emanuel dos Santos foi secretário de Estado do Orçamento entre 2005 e 2011, sempre na equipa do ministro das Finanças Teixeira dos Santos, durante toda a era governativa de José Sócrates que terminou com o pedido de ajuda externa e um programa assinado com a troika que implicava a austeridade no país — só PCP e BE não o aprovaram.

Mas agora um dos membros desse Governo acaba por ajudar ao argumento de Catarina Martins que lhe dá mesmo “toda a razão”. “Quando o setor privado estiver mais frágil, o Estado vai ter de investir mais para puxar pela economia”. “É altura de aprender com os erros do passado”, diz a bloquista que desafia “a juntar vontades num programa de combate do desemprego” com “mais investimento público e estado social”.

E também não deixa de ir buscar o exemplo da “geringonça” e a receita que foi aplicada, que classifica de “ousadia”. “Aumentar salário e pensões trouxe mais sustentabilidade às contas da Segurança Social”. E que o “erro” do Governo nesta fase foi “não investir tudo o que podia no SNS ou não ter combatido a precariedade”. A retoma dos acordos do passado tem de passar por outra linha, segundo Catarina Martins.