Os mercados acionistas de todo o mundo têm sofrido o impacto da rápida propagação do novo coronavírus. Isso é uma péssima notícia para as economias mundiais e, também, para a generalidade dos investidores bolsistas – mas não todos: os mais temerosos, que apostaram nos fundos “à prova de riscos” que são geridos e comercializados por algumas corretoras, estão a dar-se bem. Um desses fundos é o Universa Tail, que em março obteve uma valorização superior a 3.600%, ou seja, multiplicou por mais de 35 vezes o valor dos investimentos.

Apesar da recuperação moderada que marcou a semana passada, graças às medidas que estados e bancos centrais estão a tomar, as bolsas continuam muito pressionadas pelas perspetivas de recessão profunda. Ainda assim, desde os máximos fixados a 19 de fevereiro, a bolsa dos EUA afundou mais de 33% até aos mínimos de 23 de março (desde aí, subiu 23%). Esse péssimo mês de março foi, noutra perspetiva, o “sonho” de quem gere este tipo de fundos de cobertura de risco (hedge funds).

O Universa Tail, um fundo gerido a partir de Miami, EUA, é um dos fundos que tiveram o desempenho mais positivo, por entre o crash dos principais índices. Trata-se de um fundo onde participa, como conselheiro, Nassim Taleb, o autor de um dos livros de mercados mais marcantes dos últimos anos: “The Black Swan“, o “cisne negro”, ou seja, aquele acontecimento que se receia poder chegar de surpresa e abalar os mercados financeiros de forma drástica. Esses são os “tail risks” que todos os investidores temem, os cenários mais pessimistas que, quando se concretizam, apanham quase todos os investidores em contrapé.

Segundo uma carta que a gestora Universa enviou aos clientes, e que é citada pela agência Bloomberg, bastaria alguém ter comprado 3,3% da sua carteira de investimentos neste fundo “Tail” que isso seria suficiente para, caso todo o restante investimento estivesse nas ações do índice S&P500 (o índice de referência da bolsa de Nova Iorque), anular por completo as elevadas perdas que a bolsa registou.

É uma estratégia “agressiva” a deste fundo, reconhece a gestora, porque vai muito além da mera diversificação ou aposta em ativos “seguros” como o ouro. À medida que as bolsas caíam, o fundo foi vendendo alguns ativos para concretizar as mais-valias mas manteve alguma exposição a proteger novos abalos nas bolsas. O que faz sentido porque, nas palavras de Mark Spitznagel, o responsável pelos investimentos do fundo, “olhando para a frente, continuamos a achar que o mundo está preso na mãe de todas as bolhas financeiras globais, com vulnerabilidades sistémicas alimentadas pelos estímulos sem precedentes pelos bancos centrais e pela tomada de riscos ingénua e doida” que tem havido nos últimos anos em alguns setores.