Portugal continua sem ter uma data para o fim do isolamento social. António Costa admitiu na Rádio Observador um país a “múltiplas velocidades” e um levantamento de restrições feito em função da região e idade da população, com a hipótese de manter os idosos isolados até ao final do ano, mas ao contrário de Von der Leyen — que desaconselhou reservas para férias de verão — Costa pediu aos portugueses que façam planos “cá dentro”. Mas o que aconteceria se em Portugal se seguisse o exemplo de Wuhan?

A cidade de Wuhan viveu 11 semanas de confinamento. Foram 76 dias de restrições à liberdade e de ordem para ficar em casa, que em Portugal não se vive da mesma forma. Neste momento, apenas têm obrigação de ficar confinados em casa os doentes com Covid-19 ou pessoas que estejam sob vigilância das autoridades de saúde. Aos restantes, desde a declaração de Estado de Emergência pelo Presidente da República e respetiva definição de medidas pelo Governo, que desde 20 de março é recomendado que permaneçam em casa, tendo sido encerrados todos os estabelecimentos de comércio considerados não essenciais. O teletrabalho foi igualmente recomendado mas há empresas industriais e de serviços que continuam abertas e os seus trabalhadores continuam a deslocar-se entre o domicílio e a sede da empresa.

A suspensão das aulas, contudo, foi a primeira medida de restrição a ser aplicada a 16 de março, resultando no recolhimento não só de milhares de crianças e jovens a casa, como também dos pais dos menores de 12 anos para dar assistência aos filhos

Partindo dessa diminuição considerável de movimento de pessoas nas ruas logo a partir de 16 de março e do período de 76 dias de confinamento vividos em Wuhan, Portugal manter-se-ia em casa até dia 31 de maio. Se quisermos considerar a data em vigor do Estado de Emergência e respetivas medidas, então o período de isolamento social poderia ir até 3 de junho.

Não é fácil comparar as duas realidades até porque os contornos do isolamento social são diferentes e a China é um país com etiqueta respiratória e hábitos sociais mais evoluídos do que os dos portugueses, pouco habituados a outros coronavírus que causaram crises igualmente graves. Recorde-se que a Ásia já enfrentou a síndrome respiratória aguda grave (SARS) e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) nos últimos 20 anos.

Por outro lado, Portugal tomou medidas muito mais rapidamente do que a China, após o diagnóstico do primeiro caso, o que poderia permitir uma saída mais rápida das medidas de isolamento, embora o baixo número de pessoas imunes à Covid-19 seja uma das preocupações.

Medidas restritivas. Portugal foi mais rápido do que os outros a responder ao vírus?

Também a Organização Mundial da Saúde já se mostrou preocupada com o “levantamento prematuro de restrições” que pode levar a um “ressurgimento letal” do novo coronavírus. “Sei que alguns países já estão a preparar a transição para sair das restrições do ‘Fiquem em Casa’. A OMS quer ver essas restrições levantadas, como toda a gente. Mas, ao mesmo tempo, levantar essas restrições muito rapidamente pode levar a um ressurgimento letal”, avisou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, num biefing da organização realizado na última sexta-feira.

Segundo o responsável “o caminho para sair [da contenção] pode ser tão perigoso como o caminho até entrar, se não for gerido convenientemente” e sublinhou ainda que “nenhum país está a salvo” dos efeitos da pandemia.

OMS avisa: levantamento prematuro de restrições pode levar a um “ressurgimento letal” do novo coronavírus