Para os investigadores, foi mais uma confirmação do que uma surpresa. Há muitos mais alunos sem computadores com acesso à internet do que aquilo que mostram os dados do Instituto Nacional de Estatística. Só nas escolas públicas, 28% dos alunos do ensino básico não tem acesso a este equipamento. Esta é uma das conclusões do inquérito que o Centro de Economia da Educação da Universidade Nova de Lisboa está a realizar junto de professores de escolas públicas e privadas, do 1.º ao 12.º ano.

Para além da falta de computadores, os resultados preliminares mostram também que o ensino à distância tem sido feito essencialmente através do envio de fichas (mais de 80%), só com um terço dos professores a fazer, de facto, videoconferências com os seus alunos. Esta segunda conclusão foi a que mais espantou a equipa de investigação cujo objetivo, numa primeira fase do estudo, é perceber quais as soluções de ensino a distância que têm sido adotadas no contexto da atual pandemia.

Ana Balcão Reis, uma das investigadoras da equipa da Nova, não quer, para já, apontar um número exato de quantos alunos do básico e do secundário não terão à sua disposição a ferramenta essencial para o ensino à distância. Apesar de já terem 1.586 respostas, a professora frisa que os resultados ainda são preliminares e que a equipa de investigação está a analisar a amostra para garantir que ela é representativa. Caso não o seja, a equipa irá reforçar o número de inquéritos feitos que, até agora, foram enviados aos professores através das redes sociais.

“A falta de computadores entre os alunos foi mais uma confirmação do que uma surpresa em relação àquilo que já esperávamos. A grande surpresa foi perceber como é que estas aulas à distância estão a acontecer. Quando olhamos para estes resultados preliminares e vemos que só 30% dos professores recorrem à videoconferência percebemos que o ensino online não é nada online”, defende Ana Balcão Reis, argumentando que a imagem que temos de ensino virtual é através de videoconferências ou vídeos de aulas gravados pelos professores.

“Seria sempre qualquer coisa por aí. O que não esperamos é que seja só o envio de fichas por email”, sublinha, frisando que as respostas foram recolhidas antes das férias da Páscoa e que os professores poderão no 3.º período, que arrancou terça-feira, fazer acertos à forma de ensinar. Por outro lado, o inquérito foi feito através das redes sociais, chegando mais rapidamente a quem já está habituado a usar recursos onlines.

Ensino à distância. Diferentes velocidades entre escolas, alunos sem computadores e pais sem tempo trazem à tona as desigualdades

Quantos alunos não têm computador com acesso à internet? 

Os dados oficiais são os do INE: em Portugal, cerca de 5,5% dos agregados familiares com crianças até aos 15 anos não têm acesso a computadores com internet em casa. Considerando que do 1.º ao 9.º ano estão inscritos perto de um milhão de alunos (987.704), isto significa que cerca de 50 mil estudantes não têm o equipamento necessário para ter aulas online.

Os números do estudo da Nova são mais dramáticos. Em média, 23% dos alunos até ao 12.º ano não têm acesso a computador com internet em casa, valor que é ainda mais elevado quando se retiram os dados de escolas privadas. Estes números, se pudessem ser diretamente extrapolados, representariam um universo de mais de 300 mil alunos.

A grande diferença em relação aos números do INE de novembro passado é explicada pelo contexto atual. “Esta diferença pode justificar-se uma vez que os dados do INE apenas indicam se existe algum computador com internet no agregado familiar de cada aluno (por exemplo, podem existir situações em que os filhos não podem aceder ao computador por os pais o estarem a utilizar para teletrabalho)”, lê-se no estudo.

Ana Balcão Reis acrescenta um outro cenário: “Mesmo que o computador da casa não esteja a ser usado para teletrabalho poderá haver apenas um para vários estudantes do mesmo agregado familiar.”

A investigadora frisa ainda que há respostas muito diferentes e um abismo entre a realidade da escola pública e da privada. Por exemplo, no 1.º ciclo do ensino público a média da percentagem de alunos sem computador é de 31%, nas escolas privadas este valor cai para 10%.

No 2.º ciclo a diferença é de 29% contra 9% e no 3.º ciclo de 25% contra 17%. A diferença entre público e privado só desaparece no ensino secundário, quando o número de alunos sem acesso à internet desce para 18% em ambos os tipos de ensino. Em Portugal, há 401.050 alunos no ensino secundário, o que significa que puderemos estar a falar de cerca de 72 mil alunos sem equipamento nestes três anos de escolaridade.

“Existe uma grande variabilidade nas respostas dos professores. Temos escolas onde a resposta é que nenhum dos alunos tem, outras em que todos têm computador. Mesmo dentro do distrito de Lisboa há respostas muito díspares”, explica, lembrando que há muitos professores que reportam que mais de metade dos seus alunos não tem este equipamento.

Mais para a frente, quando avançar na investigação, a equipa da Universidade Nova espera poder ter uma noção mais detalhada das falhas, até mesmo por mancha geográfica.

Estratégias de ensino a distância: 85% dos professores envia fichas aos alunos

Quanto às estratégias adotadas pelos professores inquiridos, a mais frequente é o envio de materiais complementares ao estudo, com 85% dos docentes a responder que envia fichas individuais de trabalho e trabalhos de grupo. A maioria, três quartos, também garante que esclarece as dúvidas dos seus alunos à distância, embora no estudo não se especifique como.

Aqueles que seriam os recursos típicos do ensino à distância são os menos utilizados: apenas 30% dá aulas por videoconferência e 12% disponibiliza aos alunos vídeos gravados. Há ainda uma minoria, 2%, que não desenvolveu quaisquer estratégias de ensino a distância.

Entre privadas e públicas as maiores diferenças são aqui: 63% dos professores de escolas privadas dizem dar aulas por videoconferência, valor que desce para 22% no caso de professores de escolas públicas. Por outro lado, nas privadas 27% dos professores disponibilizam vídeos gravados pelos próprios, percentagem de 8% nas escolas públicas.

Quanto à avaliação dos alunos, a grande maioria (cerca de 71%) diz recorrer aos trabalhos de casa enviados aos alunos, embora 19% dos professores assuma não estar a recolher quaisquer elementos de avaliação.

Por último, o estudo da equipa de investigação da Universidade Nova, composto por Ana Balcão Reis, Gonçalo Lima, Luís Catela Nunes, Pedro Freitas e Tiago Alves, dá conta que cerca de 77% dos professores inquiridos não estão a utilizar os recursos para ensino a distância disponibilizados pela Direção Geral de Educação (DGE).