António Costa anunciou este sábado, numa entrevista ao Expresso, que o acesso às praias, no verão, vai ter restrições e que o Governo está a trabalhar com as autarquias e com as capitanias para garantir que não se verificam aglomerações de pessoas. Em declarações à Rádio Observador, Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, questiona como se controla o acesso a praias e a banhos e diz que “na prática” isso “não funcionar”. Apela ainda a que o primeiro-ministro “assuma responsabilidades”.

“Como se controla acesso a praias e a banhos? Na prática não vai funcionar”, diz Carlos Carreiras

“As declarações do primeiro-ministro [sobre restrições nas praias] vão no sentido correto, mas não dizem é como é que isso faz.” Carlos Carreiras afirmou que a Polícia Marítima e as capitanias não têm efetivos suficientes para “acorrer em situações de normalidade”, quanto mais a “situações de anormalidade”. “A Câmara de Cascais não tem competências, nem consegue do ponto de vista operacional, aplicar medidas dessas”, salientou.

A Câmara de Cascais colocou barreiras nos acessos às praias do concelho durante o estado de emergência, mas estas funcionam sobretudo como avisos ou entraves simbólicos que é possível contornar, isto depois de nos primeiros dias de recomendações de confinamento as forças de segurança terem procurado evitar aglomerações nas praias.

Questionado sobre se uma situação idêntica pode acontecer noutros municípios, Carreiras argumentou que esta “não é claramente uma exclusividade de Cascais”. “Não é preciso ter uma grande dose de inteligência para perceber como é que se controla o acesso à praia se não for vedado — mesmo vedado já verificámos situações em que foi preciso intervir, mas aí estávamos a falar de afluência baixa —, mas como é que se controla o acesso à praia, como é que se controla o acesso a banhos? Há coisas que se dizem… É fácil determinar coisas cuja responsabilidade não é minha (…) Do ponto de vista prático e objetivo não têm qualquer razão porque se sabe que não vai funcionar”.

Carreiras argumentou ainda que “o sr. primeiro-ministro tem de assumir a responsabilidade” e que este tem competências legais para fazer essa proibição. “Não pode é ficar bem com a consciência dele colocando a responsabilidade em terceiros, que ele sabe que não vão ser capazes, quer por não terem competências legais, quer por questões operacionais, de fazer cumprir essa intenção. Mas de boas intenções, como se costuma dizer, está o inferno cheio”, declarou. Como município, há vários anos que Cascais declara o início da época balnear a 1 de maio, coisa que este ano ainda não aconteceu.

Costa anuncia que praias vão ter restrições no verão

Em entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro defendeu que existem praias de “grande extensão onde a aglomeração é facilmente evitável” e outras “em que todos sabemos que a aglomeração é grande”. “A aglomeração não vai poder existir”, disse, sublinhando que mesmo depois da reabertura gradual, as regras de distanciamento e de higiene são para manter. Até porque “o vírus não hiberna no verão”.

Oiça aqui a entrevista a Carlos Carreiras.

Nazaré diz que só com ajuda dos veraneantes. Póvoa admite que sejam chamados fuzileiros

Mais dois presidentes de câmaras de concelhos com grandes praias reagiram, em declarações à Rádio Observador, ao anúncio feito pelo primeiro-ministro de que irá haver restrições no acesso aos areais.

Walter Chicharro, presidente da Câmara da Nazaré, admite repensar a implantação das barracas na praia, para não ficarem tão próximas e garantir as regras de distância social. Mas já falou com o capitão do porto e concluiu que “só com colaboração” dos veraneantes é que conseguirá manter essas restrições no acesso ao areal, quando começar a “corrida à praia”. “É um problema do país todo e de todo o mundo, de todas as praias onde a pandemia terá uma preocupação muito relevante”, disse Chicharro, que reiterou que será precisa “uma grande colaboração de toda a gente”.

Pode ouvir aqui as declarações do autarca da Nazaré.

Limitar ajuntamentos na praia? “Sem colaboração das pessoas não conseguimos”, diz autarca da Nazaré

Já Aires Pereira, presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, diz que o primeiro-ministro “tem a faca e o queijo na mão”. Defende que devem ser dadas instruções à Agência Portuguesa do Ambiente, para limitar a lotação de cada praia. Admite depois o envolvimento da Polícia Marítima e dos Fuzileiros, para ajudar a garantir que essas restrições sejam mantidas. “Terá que haver naturalmente um reforço de meios, seja através de fuzileiros, seja dos polícias marítimos, para intensificar a fiscalização. Temo que no verão seja muito difícil controlar o acesso e o número de pessoas que vão estar em permanência nas praias”, disse Aires Pereira.

Pode ouvir aqui as declarações do autarca à Rádio Observador.

Restrições nas praias. “Primeiro-ministro tem a faca e o queijo na mão”, diz autarca da Póvoa de Varzim

Com João Alexandre