Longe da habitual enchente de um sábado de manhã, o paredão de Oeiras vê-se percorrido por inúmeras pessoas a fazer exercício, embora o país ainda se encontre em estado de emergência, apreensivas com o ‘day after’ covid-19.

Sem sair da casa há 30 dias, tendo como ‘quintal’ o paredão de Santo Amaro de Oeiras (distrito de Lisboa), o casal Leonardo Cópulo e Rossella Leal saiu hoje para a primeira caminhada da quarentena, ambos protegidos com máscara, mas desejosos de apanhar ar.

À Lusa, Rossella Leal reconheceu “não estar a ser fácil” o isolamento, mas admite que há uma razão que leva as pessoas a “passar por tudo isto”.

“Tenho o costume de falar que isto aqui é o quintal de casa e ficar sem fazer o que você gosta é muito difícil, ficar 24 horas em casa com telemóvel, computador, deixa-te um pouco exausta”, frisou.

A brasileira que vive há dois anos em Portugal reconhece que o eventual levantamento do estado de emergência a 2 de maio lhe traz “alguma preocupação”, sobretudo tem receio de que as pessoas “esqueçam o que já passaram e ter de voltar de novo ao isolamento”.

Leonardo, por seu turno, reconhece haver pessoas que aguentam melhor que outras, dá o exemplo do seu caso, revelando também que a sua mulher consegue trabalhar de casa, enquanto ele não o pode fazer.

“Eu sou DJ, vou ficar um longo período sem trabalhar. Eu preciso de concentração de pessoas, acho que as coisas vão no seu tempo, eu seguraria mais”, disse quando questionado sobre o cessar do estado de emergência e abertura gradual de alguns serviços previstos para maio.

“Uns aguentam, é o nosso caso, outros já não, tem sempre alguém burlando, o que eu vejo é que a maioria está a respeitar, porque você tem de respeitar a sua vida”, alertou, afirmando que respeitaria “um pouco mais o confinamento” devido ao perigo de “poder disseminar de novo”, mas em contrapartida reconhece que as pessoas “têm [de trabalhar] para sobreviver”.

José Luís fazia a sua caminhada de fim de semana junto a Carcavelos e mostrou-se, igualmente, “muito preocupado com a volta da economia, como vai ser o ‘day after’ , o dia seguinte”, lembrando que “muitas empresas fecharam, elevando o desemprego”, e que não será “da noite para o dia que vai voltar ao normal”.

“Como vai ser com essas pessoas sem emprego, não vai haver dinheiro para todos. No pós-corona vai ser difícil a vida voltar ao normal”, reconheceu o empresário há 20 anos a viver em Portugal e que se encontra em teletrabalho.

José Luís mantém a esperança de que as autoridades consigam fazer um “planeamento” para que a economia comece a circular, mas alertou para que “todos estão dependentes, não adianta liberar um setor e outro ficar parado”.

No paredão de Santo Amaro de Oeiras veem-se muitos corpos habituados à prática desportiva, mas também outros que saem agora do isolamento dos dias e se mostram em caminhadas, corridas ou em simples passeios de bicicleta.

António Martins é um dos que faz 10 quilómetros diários, entre Paço de Arcos, onde vive, e Carcavelos. Apesar de já se encontrar reformado, mostra um corpo cuidado, tendo sido apanhado de tronco nu a correr na marginal.

“Tem sido uma quarentena um pouco complicada, este é o único espaço de tempo em que saio uma hora de manhã para fazer a caminhada, dá para manter a forma”, explicou António Martins adiantando que se tornou voluntário no bairro Jota Pimenta onde vive levando medicamentos ou compras aos idosos que não podem sair de casa.

António Martins contou à Lusa que desde quarta-feira que vê mais pessoas na rua, mostrando-se receoso com aquilo que lhe parece ser “uma pequena precipitação” na reabertura de alguns serviços anunciados pelo Governo, mas reconhece entender que a “parte económica está a ficar completamente derretida e se não se começar entretendo vai ser muito complicado economicamente”.

Geraldine Correia passeava com o filho junto a Carcavelos. Não pode estar em teletrabalho, uma vez que é terapeuta e, por um lado, vê com bons olhos o anunciado levantamento de algumas restrições: “para o sistema imunitário não é bom ficar fechado em casa sem apanhar ar”.

“É um direito, é uma liberdade poder trabalhar, movimentar-se. O Estado português, em relação a outros países, tem sido muito positivo, não tem sido muito rígido, vai fazer bem a toda a gente, com as devidas precauções”, reconheceu.

Os bancos no passeio da marginal junto à praia de Carcavelos não conhecem o descanso das pessoas por muito tempo, 10 minutos chegam agora para contemplar o azul do mar cujas ondas continuam a trazer a espuma dia após dia, alheias à pandemia que tirou as pessoas da praia.

Alheias ao momento atual parecem estar também mãe e filha que tiram ‘selfies’ junto ao paredão enquanto pais com crianças nas suas bicicletas ou com patins aproveitam o sol da manhã para o passeio higiénico tendo como pano de fundo praias desertas.