“Boa noite. Hoje é Sexta-Feira Santa. Não há notícias”. Foi assim que, a 18 de abril de 1930, há 90 anos, o locutor da BBC abria o noticiário das 20h45. Durante os 15 minutos seguintes, tudo o que os britânicos ouviram nas suas casas foi um piano a tocar. E, a seguir, a ópera “Parsifal” na extinta sala de concertos Queen’s Hall.

Não é que aquele 18 de abril tenha sido particularmente calmo. Nesse mesmo dia, um tufão destruiu a ilha filipina de Leyte, um incêndio numa igreja matou 118 jovens na Roménia e, na Índia Britânica, onde atualmente fica o Bangladesh, um grupo de rebeldes destruiu um arsenal e desencadeou a revolta de Chittagong.

Mesmo no Reino Unido, as últimas horas estavam a ser agitadas. Na quinta-feira anterior, um jornal tinha publicado uma entrevista a John Robert Clynes, o ministro do Interior britânico à época, mas o conteúdo não agradou ao governo. Por isso, contactou a BBC para garantir que o noticiário iria incluir uma reação do governo a negar o artigo.

A rádio era, na verdade, a última hipótese do governo nesse dia. Naquele tempo, nenhum jornal ia para as bancas na Sexta-Feira Santa e, por isso, a BBC, com apenas 10 anos de existência, seria a única que poderia dar as notícias com normalidade naquela noite.  Mas não aconteceu e a redação simplesmente assumiu que nenhum evento naquele dia tinha sido digno de notícia.

A decisão é ainda hoje recordada como um momento que assumiu a personalidade jornalística da jovem BBC, que nos últimos tempos tinha duplicado o tamanho da equipa e aumentado a capacidade tecnológica da redação em Savoy Hill: independente e criteriosa.

Na Revisão do Ano 1930, o Dia Sem Notícias foi recordado assim: “Um padrão de qualidade muito definido foi almejado e, quando não havia notícias suficientes julgadas como dignas de serem transmitidas, nenhuma tentativa foi feita para preencher o espaço em branco”.

Além disso, havia algumas limitações técnicas: apesar de a BBC já fazer algumas reportagens em nome próprio, grande parte do conteúdo vinha de agências como a Reuters, que estavam especialmente paradas por ser Sexta-Feira Santa. E o primeiro direto naquela rádio só aconteceu em 1936, quando os sons de gritos e dos bombeiros foi transmitido de um telefone aquando do incêndio no Palácio de Cristal.

Passados 90 anos, é difícil imaginar um mundo sem notícias — muito menos neste 18 de abril marcado pelo maior problema de saúde pública com dimensão mundial desde os tempos da Gripe Espanhola. O mundo mudou, o jornalismo também. Nove décadas depois, nasceu a Rádio Observador, que pode ouvir aqui. E se precisa de uma pausa, pode encontrá-la na secção “O Melhor do Observador”.