Será que precisávamos mesmo de um filme biográfico sobre J.R.R. Tolkien, como o “Tolkien” que foi rodado em Inglaterra pelo finlandês Dome Karukoski, com Nicholas Hoult no papel do título, e se estreia este sábado no canal TVCine Top sem ter passado pelos cinemas portugueses? Já temos boas biografias em livro, como as de Humphrey Carpenter ou Michael White, e se formos ao YouTube, encontramos vários documentários sobre a vida e obra do autor de “O Senhor dos Anéis”, uns mais sucintos, outros mais elaborados (há um excelente, datado dos anos 90, repleto de entrevistas muito interessantes com pessoas como o seu filho Christopher, falecido recentemente, ou Tom Shippey, autor de um estudo crítico de referência sobre Tolkien e narrado por Judi Dench).

[Veja um documentário sobre Tolkien:]

Passa-se ainda que grande parte da vida de Tolkien, a partir da altura em que casou com Edith Bratt (Lily Collins, no filme), começou a constituir família, a escrever as suas obras e a lecionar em Oxford, é totalmente calma, feliz, sem sobressaltos nem contratempos graves. O escritor, um homem de família, de erudição e de vida académica, que só se sentia bem em casa, na universidade ou no “pub” rodeado de amigos escritores ou professores como ele, sempre evitou as luzes da ribalta, sobretudo a partir do sucesso de “O Senhor dos Anéis” e fugia dos fãs que o tentavam visitar e chegar à fala com ele, quer para o elogiarem, quer para fazerem perguntas as mais das vezes descabidas sobre o livro.

Não é assim por acaso que Karukoski se centra nos anos de infância e juventude de Tolkien, e nos tempos de formação na universidade, dando também algum relevo à sua experiência nas trincheiras da I Guerra Mundial. Mas nem assim o filme consegue justificar satisfatoriamente a sua existência. Não serve como um “Tolkien Para Totós” cinematográfico, para uso dos que desconhecem tudo, ou quase tudo, sobre a vida do escritor; e não traz nada de inédito ou pouco conhecido aos que a conhecem bem. “Tolkien” é um filme de juntar os pontinhos, com muita estenografia biográfica e muita compressão temporal, onde argumentistas e realizadores se esforçam bastante, e de forma óbvia, para nos chamar a atenção para detalhes, factos e incidentes que terão sido importantes para a posterior elaboração de “O Hobbit” e muito em especial de “O Senhor dos Anéis”.

[Veja uma entrevista com Nicholas Hoult:]

Temos Tolkien e Edith na ópera a ouvir o “Anel” de Wagner: Tolkien a inventar uma língua para impressionar Edith, e que mais tarde se tornará no élfico; a T.C.B.S., a sociedade semi-secreta formada pelo escritor e pelos seus amigos e colegas Rob Gilson, Christopher Wiseman e Geoffrey Bache Smith referida como sendo uma “irmandade”; o dedicado impedido de Tolkien nas trincheiras que responde pelo nome de Sam; ou Tolkien a transfigurar, em pleno combate, os inimigos em criaturas saídas de Mordor e os soldados alemães que se precipitam sobre as posições inglesas empunhando lança-chamas, em dragões das suas futuras histórias.

Tudo muito demonstrativo, sinalizado, certinho e pouco original, isto para contar a história de parte da vida de um homem dotado de uma prodigosa imaginação e de uma incomensurável criatividade, um inventor de linguagens complexas e um construtor de elaborados, coesos e detalhadíssimos mundos fantásticos. A resposta à pergunta com que se inicia esta crítica é: não, um filme biográfico sobre J.R.R. Tolkien não fazia na verdade falta nenhuma.

“Tolkien” estreia hoje, dia 18, no TVCine Top, às 21.30