O senhor João aparece no quintal mal ouve o carro buzinar, no Pico da Lombada, em São Martinho, no Funchal. Aproxima-se para receber a refeição que lhe vão entregar, uma rotina nova, que começou com o estado de emergência.

“Este senhor até tem família, tem uma irmã, mas ela tem uma pensão pequena, não consegue ajudar. Este senhor costumava ir todos os dias ao Funchal buscar refeições, mas, com esta situação da pandemia, a irmã ficou com medo que ele ficasse contaminado e pediu-nos ajuda”, explicou à agência Lusa Lisandra Spínola, assistente social da Junta de São Martinho.

O senhor João, reformado e doente, faz parte de um grupo de 43 pessoas a quem a junta fornece uma refeição quente de segunda a sexta-feira, à hora do almoço, desde que entrou em vigor o confinamento imposto pelo estado de emergência devido à covid-19.

“Neste período, o que se notou foi que houve uma necessidade de acudir a situações, nomeadamente frequentadores de centros de dia que foram para casa, alguns deles com fracos recursos financeiros. Aí começámos a fornecer refeições”, explicou o presidente da Junta de São Martinho, o socialista Duarte Caldeira.

A equipa responsável pelas entregas é composta por dois elementos.

Jacobo Gonçalves, o motorista, já sabe o caminho de cor, mas ainda assim coloca à sua frente um quadro com o nome das pessoas e a indicação das ruas, e percorre a freguesia de norte a sul em menos de uma hora, para que a comida chegue “quentinha” a casa de toda a gente.

“Está tudo bem oleado. Criámos um circuito e convencemos as pessoas a estar àquela hora na porta. Nos primeiros dias, tínhamos de ligar para todos. Às vezes não atendiam, tínhamos de insistir. Chegou mesmo a acontecer irmos embora e depois as pessoas ligaram-nos e tivemos de voltar para trás”, contou.

A freguesia de São Martinho é uma das mais populosas das dez que compõem o concelho do Funchal, com 26.482 habitantes (Censos 2011), e fica localizada na zona oeste, onde se encontra a maior concentração de hotéis e áreas balneares da ilha da Madeira.

O percurso começa à porta do restaurante que fornece as refeições e, conforme explicou o presidente da junta, não é sempre o mesmo, pois o projeto visa também apoiar o setor da restauração, que está paralisado.

“Na primeira semana, houve uma empresa que ofereceu as refeições. Nas duas semanas seguintes, comprámos nós a eles. Ao fim dessas duas semanas, procurámos outros restaurantes na freguesia que fizessem refeições dignas a preços razoáveis”, contou.

Lisandra Spínola e Jacobo Gonçalves colocam as máscaras de proteção e arrumam as refeições na bagageira.

O carro circula por estradas secundárias, caminhos apertados, alguns sem saída. Pico Funcho, Quebradas, Levada dos Piornais, uma refeição aqui, duas ali, outra acolá, e a história das pessoas é sempre feita de solidão, velhice, desemprego, doença ou carências.

“Aqui, são refeições para dois agregados”, diz Lisandra Spínola, ao chegar à Rampa do Relojoeiro. E explica: “São duas irmãs que vivem sozinhas, ambas com uma depressão profunda. A outra senhora é cuidadora de uma idosa. Fornecemos a refeição também para ela.”

A viagem prossegue: Levada dos Piornais, Rampa do Amparo e depois uma descida até à beira-mar, Ponta da Cruz, em plena zona hoteleira, onde vive um casal numa barraca, ela venezuelana, ele madeirense.

“Vivem ali sem nada, absolutamente nada. Não há hipótese. Têm uma barraca, mas são como sem-abrigo”, conta Lisandra Spínola, enquanto a viatura circula por entre hotéis encerrados, a caminho do Bairro da Ajuda, para entregar mais três refeições: uma para a senhora Helena, que vive sozinha, duas para o senhor Alexandre, que vive com um irmão, ambos com deficiência mental.

“Amanhã à mesma hora?”, pergunta ele, com um sorriso e os olhos brilhantes, dando à pergunta um tom de afirmação.

A viatura segue viagem e entra na Travessa das Virtudes. Lá ao fundo está uma menina à porta de casa para receber três refeições – uma para ela, outra para o irmão mais novo, outra ainda para a mãe – e quando lhe perguntam por esta, diz que foi para o hospital. Estava grávida e o bebé nasceu durante a noite.

“Passaram a ser três crianças e um adulto”, comenta a assistente social com satisfação.

O percurso termina no Bairro da Nazaré, o maior complexo de habitação social do arquipélago da Madeira, com cerca de 5.000 residentes, onde é também distribuído o maior número de rejeições.

Também aqui a entrega processa-se de forma muito rápida.

“Pronto, só falta uma pessoa. É uma senhora de 86 anos, a dona Rosa Henriques. Vive completamente sozinha, não tem filhos, não tem marido. É daquelas pessoas que faziam parte do centro de dia”, explica Lisandra Spínola. E não evita o elogio: “É um amor de pessoa, a dona Rosa.”

Na Junta de Freguesia, Duarte Caldeira realça a importância desta “primeira intervenção”, atendendo ao grau de proximidade com a população. E enfatiza: “Estamos disponíveis para prestar todo o apoio necessário.”