A liga de futebol está a pensar retomar o campeonato nacional de futebol, avançou este domingo Luís Marques Mendes no habitual espaço de comentário na SIC. Os 10 jogos em falta estão previstos ser realizados nos próximos meses de junho e julho. Serão feitos ou à porta fechada ou com uma redução muito significativa de espetadores, de maneira cumprir as regras de saúde e de distanciamento social. Já o campeonato da próxima época vai ser retomado em setembro — e não em agosto — para fazer o devido ajustamento. “O futebol, com esta paragem, já teve danos na ordem dos 300 a 400 milhões de euros”, disse Marques Mendes.

António Costa, o “maior beneficiário da crise”

O primeiro-ministro António Costa é, no entender de Marques Mendes, “o maior beneficiário político da gestão desta crise”. O ex-líder do PSD disse que antes de rebentar a pandemia, António Costa “estava em sérias dificuldades, parecia um primeiro-ministro cansado e esgotado”. “Mudou” e ganhou “nova alma”, popularidade e a certeza de que os orçamentos (retificativos para este ano) vão ser aprovados. Com isso “evitou crises políticas.”

O líder do PSD também tem estado bem, na opinião do seu antecessor, mas, considerando um plano futuro, perdeu margem de manobra “não por culpa própria, mas por mérito de António Costa”. “Acho que Rui Rio já percebeu este filme”, porque vai ter de aprovar os orçamentos do Governo minoritário socialista, “sem esquecer que não vai ser fácil criticar o Governo na gestão da crise económica porque a crise não é nacional, é global”. E se a retoma económica for rápida, como prevê o Fundo Monetário Internacional, já para 2021, isso vai ser bom para o Governo. Para Marques Mendes, PCP e BE vão passar “verdadeiramente” à oposição, pelo que a “geringonça orçamental acabou”.

O outro grande beneficiário da crise é o Presidente da República. Se no início da quarentena teve um “azar dos Távoras”, mais tarde “recuperou bem” com a ideia do estado de emergência. Ao fazê-lo, fez com que o Partido Socialista não vá ter um candidato presidencial próprio.

“Faço um balanço positivo” da crise

Ao fim de várias semanas da crise de saúde pública, há opiniões contraditórias sobre a atuação de Portugal. Marques Mendes apresentou três conclusões: Portugal está em 7º lugar na UE, ligeiramente acima da média europeia no que diz respeito ao número de infetados por 100 mil habitantes; está na 9ª posição na UE, melhor do que a média europeia, no que concerne o total de óbitos por 1 milhão de habitantes; e na 4ª posição na UE, melhor do que a média europeia, no que ao número de testes por 100 mil habitantes diz respeito.

“Faço neste momento um balanço positivo, mas nada de facilitar, não vamos no futuro deitar tudo a perder aquilo que se alcançou com muito sacrifício ao longo destas semanas”, afirmou ainda.

Sobre o regresso à normalidade, Marques Mendes assegurou que o mais provável é não existir uma vacina até ao próximo verão, pelo que devemos antes falar em “normalidade possível”. O regresso, diz, vai ser “ciclópico”, uma vez que abrir atividades e regressar ao trabalho é “sempre mais difícil do que fechar as pessoas em casa”. Havendo um risco de recaída, será precisa “muita disciplina”.

Referindo-se ao setor da educação — e dando os parabéns ao Governo e respetivo ministério —, Marques Mendes fez uma proposta: aulas de recuperação voluntárias e gratuitas durante o verão, tal como vai acontecer em França, que serão sobretudo importantes para jovens de classes mais baixas. Sugeriu ainda a utilização de uma aplicação para detetar os contactos que as pessoas têm com pessoas infetadas, cujo uso seria voluntário, anónimo e fiscalizado.

25 de abril, “uma polémica desnecessária”

A propósito da polémica em tornos das celebrações do 25 de abril, Marques Mendes assegura que esta é “desnecessária” e que poderia ter sido evitada se “houvesse da parte do presidente da AR um pouco menos arrogância e um pouco mais de bom senso”. O comentador é da opinião que a cerimónia deve realizar-se, ainda que com um quinto dos deputados e apenas um convidado, o Presidente da República. “Se tivesse sido feita desta maneira, não teria havido polémica. Acho que o presidente da AR ainda estava a tempo de corrigir esta situação.”

Marques Mendes tem uma opinião “completamente oposta” às celebrações do 1.º de maio, que não devem ser realizadas por motivos sanitários e de saúde pública.

“É absolutamente inevitável uma austeridade”

“É absolutamente inevitável uma austeridade”, disse ainda Marques Mendes, referindo-se ao sector privado. O mesmo não se aplica ao setor público. “Só há desemprego no sector privado porque os funcionários públicos, esses, não têm despedimentos”, afirmou, dizendo também que não serão realizados cortes nas pensões.

Salários reduzidos em empresas e aumento dos impostos foram dois cenários previstos pelo ex-líder do PS. “Não tenho dúvidas que vai haver um aumento de impostos. Negar a austeridade perante estas evidências é quase ofender as pessoas que ficam nesta situação.”

O comentador afiançou ainda que esta é uma crise muito diferente daquela de há oito anos, uma vez que não tem por base um “desequilíbrio orçamental”. É também uma crise “excecional e irrepetível”, que será paga ao longo de 30, 40 anos. A previsão é a de uma grande recessão, com aumento do desemprego e da dívida pública, ainda que o FMI assegure uma recuperação rápida da economia.

Relativamente à União Europeia, Marques Mendes afirmou que esta tem de ser solidária entre si, até para evitar o surgimento de movimentos populistas que, no futuro, podem ajudar a implodir o projeto europeu. “Estamos numa altura em que precisamos mais de Europa e não menos de Europa.”