Recordações, realidade, muita emoção e uma orquídea de presente — Houve de tudo na ida de Graça Freitas, Diretora-Geral da Saúde ao programa matinal de Cristina Ferreira. Numa entrevista longa e descontraída, a apresentadora tentou expor uma versão menos formal da mulher que ficará na história como uma das caras principais deste período pandémico.

Sem nunca comprometer a distância de segurança — Cristina até brincou com isso, estando sempre a ressalvar, entre sorrisos, que ambas a estavam a cumprir — as duas sentaram-se frente a frente. Depois de receber um agradecimento da apresentadora por todo o seu empenho, Graça Freitas começou assumiu que não esperava todo este cenário pandémico quando decidiu assumir o cargo que ainda hoje ocupa: “Esperava que isto [pandemia] não tivesse acontecido porque não estaríamos numa situação destas… mas aconteceu e quando acontece temos de estar à altura do que a vida nos dá. É isso que tenho tentado fazer todos os dias desde o início deste ano.”

O início da conversa começou por uma passagem nostálgica pela passado, onde Graça Freitas revelou, entre várias coisas, que sempre teve uma paixão grande pela terra (“O que eu gostaria mesmo era de ter sido era dona de terras para ter capacidade de plantar, sobretudo — e não sei bem porquê — batatas!”); que o frio foi o que mais estranhou quando veio de Angola para Lisboa (“Usávamos gorros, ponchos com franjas, essas coisas. Não foi um período sofrido da minha vida”), e o primeiro contacto com o Portugal rural quando estagiou por oito meses em Ponte de Sôr (“Confrontei-me com uma terra pequena e sem anonimato. Isso foi a primeira coisa que me fez confusão — em 24 horas ou menos todos já sabiam quem era e o que fazia!”), por exemplo.

A mensagem em vídeo de uma amiga com quem já não falava há 20 anos marcou a transição para temas mais associados à crise pandémica que tem paralisado o mundo nos últimos meses. Graça Freitas explica que acorda todos os dias antes das seis da manhã para poder ler tudo “o que se passou durante a noite no nosso e noutros países” — “A minha rotina começa por aí. Tenho muita preocupação em perceber o que aconteceu no mundo, tanto no que diz respeito à parte social como tudo o que tenha a ver com a epidemia, a ciência”, afirma.

Mesmo tendo em conta que, por exemplo, “o período normal que todos temos de manhã para tomar o pequeno almoço e tratarmos da nossa higiene encurtou muito porque há sempre mensagens para responder e chamadas para fazer”, Graça Freitas confirma que desde que tudo começou não tirou qualquer dia de folga: “Ninguém é insubstituível e eu considero-me uma pessoa normal. Contudo, nesta altura acho que faço falta, nem que seja para pequenas coisas. Se conseguir estar do ponto de vista físico, vou estar.”

Seria inevitável que a conversa também desaguasse nas críticas que a diretora-geral tem sido alvo, principalmente aquelas relacionadas com as suas indicações iniciais, de há uns meses, que diziam ser provável que Portugal nem fosse afetado pelo vírus que na altura já lavrava em Wuhan. “Tenho 62 anos, já passei por muitas pandemias”, começa por comentar. Graça Freitas nasceu “num ano pandémico” — a sua mãe “teve a gripe de 57, poucos dias antes de nascer” –, em 68 apanhou a chamada “gripe de Hong Kong” e até a mais recente H1N1. A diferença, especialmente nesses primeiros casos, é que não havia noção do que era uma pandemia: “Só sabíamos que estávamos todos doentes, ninguém sabia o que era uma pandemia.”

Usando isso com introdução partiu para a pergunta como lida com as críticas:

Lida-se com as críticas sabendo que não há forma de as evitar, fazem parte do pacote que veio com o cargo. Se há três anos me perguntasse se gostaria deste nível de exposição dir-lhe-ia que não, mas uma vez que aconteceu, faz parte. Nuns dias reajo melhor, noutros não tão bem, mas de um modo geral creio que consigo um equilíbrio. Têm havido críticas negativas que não são fáceis de ouvir, mas também têm havido muitos aspetos positivos. Muita gente que não acha que seja perfeita — e não sou, tenho perfeita noção disso — também vê o mesmo que eu: que estou a tentar fazer um trabalho honesto, um trabalho feito com verdade. Não sou nada dotada para a mentira.”

O que torna tudo mais complicado, então? A comunicação: “O que é mais difícil nestas alturas é o processo de comunicação. Nestas alturas de incerteza é ainda mais.” Ora a comunidade científica, diz, está mais habituada a lidar com a incerteza mas isso não se vê do outro lado, entre as pessoas normais. “As pessoas esperam que decidamos de uma vez por todas algo é cor de laranja, amarelo ou encarnado”, conta. Ou seja, é difícil dar certezas diárias especialmente quando tudo muda tão depressa. O caso das máscaras é um exemplo disso.

“Os asiáticos usam máscara com regularidade mas é interessante perceber que culturalmente usam-na para proteger terceiros. Não é necessariamente por terem medo de ser contagiadas”, começou por dizer ao ser recordada do ano que viveu em Macau. Esta introdução serviu de ponte para Portugal, tendo Graça Feitas confirmado que “teremos de usar em algumas circunstâncias.”

A diretora-geral da Saúde não esconde o receio de que se cometam excessos à medida que as restrições possam ir sendo levantadas, e por isso mesmo faz uma analogia com o caso de uma eventual perna partida:

Quando partimos uma perna demoramos meses a regressar ao normal. Quando saímos de casa para caminhar já não o fazemos como fazíamos umas semanas ou meses antes, temos de ir com cuidado. É uma questão de disciplina, de perceber que durante uns meses da nossa vida teremos de nos condicionar para não fazer algumas coisas que fazíamos antes.”

Do outro lado do ecrã da televisão, na plateia de espetadores que assistiam à conversa, estava a mãe de Graça Freitas, a própria é que o destacou. “Ela está a ver-nos! Vai fazer 90”, clamou. O exemplo da mãe é utilizado para explicar que as restrições são um incómodo também para ela. “Antes da Covid ia vê-la mais vezes, estava com ela bastantes horas e havia muitos abraços e beijos. Isso era muito bom. Agora vou vê-la menos vezes e tenho saudades, mas não a abraço porque ao não o fazer estou a protegê-la. E vice-versa! Podemos ver-nos, mas com regras.”

“Isto é uma forma de amor para com os outros. Eu digo à minha mãe que não a beijo agora porque gosto muito dela. É por amor que não nos estamos a abraçar. E isto não é ser lamechas!”, clamou. Com alguma ironia à mistura, Graça Freitas relembra o quanto foi “acusada” na primeira vez que disse que não podíamos dar beijinhos uns aos outros. “Disseram coisas horríveis, mas já não vejo ninguém falar disso. Fui das primeiras pessoas a dizer que não nos devíamos beijar, muito antes destas coisas todas”, remata.

Com o aproximar do meio-dia e da conferência de imprensa diária com os novos dados do coronavirus em Portugal, a conversa foi chegando ao fim. Mesmi assim, antes de um momento emocionado em que Cristina agradeceu o trabalho da diretora-geral e a mesma agradeceu o esforço de todos os portugueses, Graça Feitas reforçou a importância da verdade que diz seguir todo o trabalho que estão a fazer. “Nós damos a informação à medida que a vamos tendo e as pessoas têm de ter essa confiança”, atirou. “Nós não estamos a esconder nada e não o queremos fazer. Não há nenhum motivo para esconder alguma coisa, não ganhamos nada com isso!”