Cancelamento de espetáculos em Portugal e no estrangeiro, fragilidade da situação laboral, disparidade de atuação de autarquias e a queda de rendimentos são testemunhos de projetos da área da música erudita, ouvidos pela agência Lusa.

Músicos, orquestras e projetos de investigação têm a atividade paralisada, desde março, no contexto do combate à pandemia da Covid-19, com sacrifício do trabalho em curso, de gravações, estreias, de concertos marcados em Portugal e em festivais internacionais, sem a certeza de que venham a realizar-se nos próximos anos, já que as programações são definidas muito antes de cada edição.

Com e sem financiamentos garantidos da Direção-Geral das Artes, mas com projetos elegíveis para apoio, todas as formações contactadas pela Lusa debatem-se com a perda de receitas de bilheteira, que determina a quebra de rendimentos, muitas vezes “brutal”.

A investigação, divulgação e preservação do património musical é comum a estes projetos, que se estendem da promoção da atividade de jovem músicos à dinamização de zonas do interior, da edição livreira e discográfica e do resgate de acervos, à apresentação de novos repertórios, em Portugal e no estrangeiro. O regresso à atividade será lento e, este ano, afirmam, dificilmente antes de setembro.

É o caso da Orquestra Divino Sospiro (ODS), a quem a situação de pandemia obrigou a cancelar e reagendar concertos. O maestro titular, Massimo Mazzeo, não conta estar de volta antes do início da nova temporada. “É uma incógnita, e esta pandemia causou um impacto muito forte na orquestra”, disse à agência Lusa.

O maestro e violetista lamentou a possibilidade perdida de a orquestra se apresentar este ano em “importantes festivais”, no âmbito de uma digressão pela Europa, como o de Música Antiga de Bruxelas, o Festival Handel, em Londres, o festival de Halle an der Salle, na Alemanha, cidade natal de Handel, ou no de Saint-Michel, em França.

“São festivais de referência na música antiga”, disse o maestro que vê essas atuações adiadas sine die, face à impossibilidade de um reagendamento automático para o próximo ano, como explicou. “O diretor do Festival em Halle an der Salle, por exemplo, apesar da sua muito boa vontade, tem a programação do próximo ano já preenchida”, contou.

Mazzeo prevê, por isso, que “muitos dos concertos previstos para este ano” só venham a realizar-se, entre 2021 e 2023.

“Para um músico, o essencial é apresentar o seu trabalho em palco”, disse o maestro, referindo que a ODS não recorreu ao lay-off. Mas a maioria dos membros está a “recibo verde” e pode recorrer aos fundos de emergência criados pelos diferentes governos.

A ODS é composta por 23 músicos de diferentes nacionalidades, além de vários músicos convidados.

Dedicada ao repertório pré-romântico, o trabalho da ODS assenta na investigação musicológica e na interpretação historicamente informada, e dinamiza um Centro de Estudos Setecentistas, no Palácio de Queluz.

Mazzeo espera conseguir fazer dois concertos este ano, no ciclo Noites de Queluz, que preveem a interpretação de peças inéditas. “Para nós são importantes”, disse o maestro à Lusa, que admite apresentá-los em streaming.

Um dos concertos tem a estreia contemporânea de uma Serenata de Domenico Scarlatti, dedicada à corte portuguesa, apresentada pela primeira vez em 1720.

O outro é dedicado a um repertório exclusivamente mariano, com a participação da meio-soprano José Maria Lo Monaco. Está previsto ser gravado na Igreja do Menino Deus, em Lisboa, com edição do álbum em disco, algo importante para a orquestra.

A Mazzeo agrada a transmissão streaming de concertos, até para “incluir um faixa de público” que terá algum receio em se deslocar a salas de espetáculo. Mas as receitas de bilheteira ficam sempre para trás.

Massimo Mazzeo considera que a Cultura será o “último setor a recuperar”, pois os acontecimentos culturais e lúdicos “juntam muitas pessoas e haverá ainda receios da população”.

Além do mais”, acrescenta, “a Cultura é sempre, injustamente, relegada para um lugar secundário”. Esta pandemia “atingiu um ponto vital” do ser humano, “que se define como um ser social”.

O compositor Nuno Côrte-Real, diretor da Temporada Darcos, disse à agência Lusa que os concertos que tinha previstos até final de maio, em Portugal e no estrangeiro, foram todos cancelados ou adiados.

Hoje “tem a garantia” de que os contratos com a DGArtes e com os municípios de Torres Vedras e Lisboa “são para cumprir”, o que permite aos músicos continuar a trabalhar na produção de novas composições. Esta situação, no entanto, não evita a quebra de rendimentos, por receitas de bilheteira, de 20 a 30 % dos concertos que tinha marcados, pelos quais não receberá agora pagamento algum.

O compositor viu também cancelado o concerto agendado para 26 de junho, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no âmbito das festas da cidade, em que ia apresentar uma obra coral sinfónica sobre a “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa.

Sobre os apoios extraordinários existentes, Nuno Côrte-Real disse à Lusa que ponderou candidatar-se ao programa da Fundação Calouste Gulbenkian, mas o período de candidatura foi apenas de uma semana, e não conseguiu ter tempo suficiente para reunir todos os comprovativos de espetáculos cancelados, que tinha de apresentar, pela demora na resposta das diferentes entidades.

O maestro Martim Sousa Tavares, que dirige o projeto Orquestra Sem Fronteiras (OSF), tem também “concertos cancelados até setembro”.

A cultura será o setor que levará mais tempo a voltar à normalidade”, já que será difícil juntar 500 pessoas num espaço, “sem haver uma vacina”, disse à Lusa.

A OSF é um projeto único, na Península Ibérica, que funciona no contexto raiano luso-espanhol, com jovens músicos de diferentes origens, com o objetivo de lhes proporcionar oportunidades e de os ajudar a desenvolver a sua atividade profissional no interior, sem que tenham de deslocar-se para grandes centros urbanos ou para o estrangeiro.

O projeto conta com o apoio de mecenas e parceiros privados, de autarquias e dos ministérios da Educação e da Cultura, assim como do Ministério da Economia, através da Secretaria de Estado da Valorização do Interior.

Sousa Tavares afirmou que só em maio são divulgadas as novas datas, pois tem estado a trabalhar na “reprogramação” dos concertos cancelados.

Um dos concertos já agendado é na Mealhada, no dia 01 de novembro. O maestro elogiou esta autarquia, “muito proativa, que quis logo encontrar uma nova data na sua programação”.

Todavia, citando a sua experiência, o maestro afirmou que vê “alguma relutância de entidades públicas em assumir os seus compromissos”, sobretudo quanto à recontratualização ou ao adiamento dos concertos.

O compositor Edward Luiz Ayres d’Abreu, presidente do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (MPMP) disse à Lusa, por seu lado, que “vários concertos não acontecerão”, como os que estavam “a preparar para celebrar o 10.º aniversário da associação [MPMP] e da revista [‘Glosas’], que ocorreria em maio, com um ‘mini festival’ na Fábrica de Braço de Prata”, em Lisboa.

“Cancelou-se definitivamente um concerto de Páscoa no Convento dos Capuchos, em Almada, e muitos outros eventos ficaram adiados sine die, incluindo os do Prémio Musa [no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa] ou o prolongamento da digressão do espetáculo ‘A Menina do Mar’ [de Sophia de Mello Breyner Andresen], que visitaria agora o Teatro Micaelense”, em Ponta Delgada, nos Açores, disse Ayres d’Abreu à Lusa.

O “mini festival” dos 10.º aniversário, tinha previsto várias edições discográficas e livreiras.

O concerto do Prémio Musa, com a estreia das obras distinguidas, realizar-se-ia no âmbito do Festival Musica Viva, de 17 de abril a 1 de junho, agora “adiado para novembro” próximo.

Entre os concertos cancelados, Edward Ayres D’Abreu referiu os anunciados para a Biblioteca Nacional e os do ciclo dedicado a Fernando Lopes-Graça (1906-1994), no Museu da Música Portuguesa-Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril, concelho de Cascais.

O responsável afirmou-se preocupado. “No caso de uma segunda vaga [da pandemia], seria dramático“, disse à Lusa.

O MPMP é um dos projetos eleitos para financiamento, pelos júris dos concursos do programa de apoio sustentado, da DGArtes, mas que ficou sem apoio, por falta de verbas disponíveis.

Criado há uma década, por músicos e compositores recém-formados, o MPMP apresenta-se como “uma plataforma de música do espaço lusófono”, que “reúne diversos projetos em prol da divulgação de música erudita de tradição ocidental”.

“Quando decidimos criar o MPMP éramos finalistas no Conservatório Nacional. De vez em quando, o nosso percurso formativo cruzava-se com obras de compositores portugueses muito raramente tocadas, e surpreendia-nos a quantidade e qualidade de tantas partituras paradas no tempo, guardadas na biblioteca, gravadas em discos antigos e desde então esquecidas (…) Pusemo-nos então em movimento, numa imparável sucessão de surpresas e descobertas”, que se estendeu à atualidade e ao trabalho de musicólogos, intérpretes e melómanos, conta o MPMP, na sua página na Internet.

O pianista Filipe Pinto-Ribeiro, que lidera o DSCH-Schostakovich Ensemble, tinha já afirmado à Lusa que considera a atual situação de pandemia um “tempo de incerteza e insegurança”, alertando para que esta não seja “pretexto de cancelamentos desnecessários e incumprimentos de obrigações legais”.

“Temos de reagir em conjunto, Governo, instituições e artistas. Temos de focar as nossas energias na recuperação, em encontrar soluções para concretizar os eventos programados e para construir novos projetos. Não podemos ficar bloqueados pela incerteza e pelo medo. A arte reflete angústias, medos, mas também ilumina, apela à transcendência, e temos de nos preparar de forma construtiva para a saída desta situação ímpar”, disse Pinto-Ribeiro à Lusa, há uma semana, numa primeira resposta ao ponto de situação.

O DSCH – Schostakovich Ensemble, que viu a sua atividade “muito afetada” com o adiamento de vários concertos, tanto em Portugal como no estrangeiro, no âmbito do combate à pandemia da Covid-19, foi também considerado elegível, para apoio, pelos júris da DGArtes, mas as verbas disponíveis não eram suficientes para o financiamento da sua atividade.

Para Filipe Pinto-Ribeiro, “nunca como agora foi tão necessário o apoio aos projetos artísticos de organismos públicos e privados e de pessoas singulares que eventualmente o possam fazer”.

“Também nunca como agora foi tão necessário, para nós artistas, projetarmos o futuro e assegurarmos (…) a continuidade da criação artística que se revela, revelou e revelar-se-á essencial para a sociedade em que vivemos”, rematou.