Ricos cada vez mais ricos, enquanto um número de famílias americanas endividadas vem aumentando. É essa a conclusão a que chega o Instituto de Estudos Políticos (IPS em inglês), num relatório que alerta para o crescimento da desigualdade económica nos Estados Unidos da América. O documento, intitulado “Billionaire Bonanza 2020”, olha ainda para os últimos quatro meses e permite perceber que Jeff Bezos e Elon Musk estão entre os milionários cuja fortuna mais cresceu em plena pandemia.

Os números redondos dos ganhos do maior acionista da Amazon com a Covid-19 já não eram novidade, com as notícias a apontarem para um enriquecimento em de cerca de 22 mil milhões de euros. Contudo, o relatório vem mostrar como Bezos não está sozinho: entre 18 de março e 10 de abril de 2020, enquanto 22 milhões de pessoas perderam o emprego no país, a riqueza dos “bilionários” norte-americanos cresceu quase 10% em plena pandemia. São mais 261 milhares de milhões de euros nas mãos dos homens mais ricos do país, um valor que é maior do que toda a riqueza que Portugal consegue produzir num ano.

Jeff Bezos, o líder da Amazon, ganha 24 mil milhões de dólares durante a pandemia

Ao alargar o período de análise, partido do primeiro dia do ano até 10 de abril, o IPS conclui que 34 das 170 “billionaires” (expressão inglesa para quem tem uma riqueza maior do que o milhar de milhão de euros) ganharam dezenas de milhões, das quais oito viram o seu património líquido aumentar em seis zeros. Se já se perdeu nos números, significa que em quatro meses ganharam quase o dobro do PIB de São Tomé e Príncipe — um milhar de milhão de dólares.

Dessa lista, além de Jeff Bezos, que ocupa o primeiro lugar, fazem parte nomes como Elon Musk, que aparece em segundo e Eric Yuan, em quarto. Se o primeiro terá ganhado com as vendas da Amazon a disparar, a surpresa surge com Eric Yuan — fundador e CEO da Zoom, a aplicação de videochamadas que viu o número de utilizadores crescer para os 300 milhões durante o período da pandemia. Yuan, empresário sino-americano, ganhou perto de 2,4 mil milhões de euros em quatro meses.

O “Billionaire Bonanza” sublinha ainda que a tendência não é de agora. Em dez anos, entre 2010 e 2020, a riqueza bilionária norte-americana aumentou 80,6%, cinco vezes mais do que o aumento da riqueza das famílias. Destacam que a subida de Donald Trump a chefe de Estado não arrefeceu e olham para os seus anos no poder. Em 2017, a fortuna combinada dos 565 bilionários norte-americanos valia o mesmo que o Produto Interno Bruto britânico do ano passado. Os 2,5 biliões de euros de 2017 passaram para 3 biliões em 2020, a acompanhar um aumento no número de ricos. Em três anos, os Estados Unidos da América ganharam mais de 60 novos bilionários, com o relatório a explicar que a riqueza pode aumentar ainda mais enquanto o país tenta controlar o surto.

O enriquecimento desta ínfima fatia da população acompanha o caos que se tem instalado em muitas famílias norte-americanas. Dia após dia, o número de desempregados cresce no país e já são mais de 26 milhões. Com uma velocidade impressionante, a pandemia da Covid-19 já destruiu mais empregos nos Estados Unidos do que a crise do início da década. O relatório da IPS explica que a situação das famílias poderá sair agravada, já que 20% tem um património líquido igual a zero ou mesmo negativo.

Até à tarde desta quarta-feira, mais de 850 mil já foram infetadas pelo novo coronavírus nos EUA, mais do que em qualquer outro país do mundo. A América de Trump encabeça também o ranking de vítimas mortais, com mais de 48 mil desde o início da pandemia.