Na China, o número oficial de casos confirmados com o novo coronavírus aproxima-se neste momento das oito dezenas de milhar (80 mil), mas há dois meses o número de infetados poderia ser já quase o triplo: 232.000. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica britânica Lancet, assinado pelos investigadores Tim K Tsang, Peng Wu, Yun Lin, Eric H Y Lau, Gabriel M Leung e Benjamin J Cowling, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Hong Kong.

A análise foi publicada com o título “Efeito das mudanças na definição de casos de Covid-19 na curva epidémica e nos parâmetros de transmissão na China”. De acordo com os autores do estudo, que pode ser lido aqui, as autoridades de saúde do regime chinês utilizaram sete modelos com critérios diferentes para “definir casos de Covid-19” entre 15 de fevereiro e 3 de março.

Ao longo deste período, os critérios para detetar e dar como confirmados casos de Covid-19 alargaram-se significativamente. Caso o quinto dos sete modelos tivesse sido aplicado desde uma fase inicial do surto, que teve origem na cidade de Wuhan, o número de infetados a 20 de fevereiro — há dois meses, portanto — poderia ser de 232.000.

Este é um valor quatro vezes superior ao número de casos confirmados à data pelas autoridades (aproximadamente 55 mil) e quase três vezes superior ao número de casos dados como confirmados atualmente, já dois meses depois: aproximadamente 82 mil.

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Segundo os investigadores, foram utilizados na investigação “modelos de crescimento exponencial para estimar como as alterações na definição de casos [Covid-19] afetaram o número de casos reportados diariamente”, tendo os investigadores “inferido” depois como “a curva epidémica teria aparecido se a mesma definição de casos [em vigor a 20 de fevereiro] tivesse sido usada ao longo de toda a epidemia”.

Apesar de, segundo se lê no estudo publicado pela The Lancet, a equipa da Universidade de Hong Kong estimar que existissem 232.000 casos de infeção confirmada a 20 de fevereiro – se “a versão cinco da definição de casos tivesse sido aplicada desde início” -, o número de pessoas infetadas “é provavelmente superior” a esses 232.000, dado que “muitos casos leves não foram submetidos a testes nem foram confirmados e algumas infeções foram assintomáticas”.

Os investigadores estimam ainda que “muitos casos não tenham sido detetados quando foi usada uma definição” menos ampla, em fase inicial, na China.

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