Os Beastie Boys que toda a gente conhece e adora, os de “Fight For Your Right to Party”, não são verdadeiros. Eles são melhores pessoas, mais talentosos e mais conscientes do que tudo o que os tornou famosos — e sabem disso. E também querem que toda a gente saiba.

É essa a sensação que fica depois de ver o documentário realizado por Spike Jonze e agora disponível na Apple TV+. Nesse, e noutros aspetos, o filme está em continuidade com Beastie Boys Book, livro editado o ano passado por Ad Rock e Mike D, os Beastie Boys sobreviventes, depois da morte, em 2012, de Adam Yauch. No livro, tal como no documentário, eles assumem que ficaram conhecidos por serem adolescentes inconvenientes, sem grande noção das alarvidades que faziam, confessam que tinham humor duvidoso e skills medíocres e fazem a devida autocrítica. Às vezes revelam até algum desdém em relação a quem foram e aquilo que fizeram… ou o que lhes mandaram fazer, porque também apontam o dedo a algumas personalidades mais influentes que os levaram por maus caminhos.

A história dos Beastie Boys é contada ao longo de 2 horas no palco do opulento King’s Theater, em Brooklyn, o que também diz alguma coisa sobre o estatuto e respeitabilidade que o grupo conseguiu, mesmo com o passado “duvidoso”. O espetáculo aconteceu em Abril do ano passado, com guião e filmagem de Spike Jonze. No fundo, é o registo, em vídeo, de um espectáculo ao vivo que foi concebido como um documentário. Mike D e Ad Rock, em palco, contam a história e comentam as imagens. Continua a ser um jogo a três, como quase sempre foi com os Beastie Boys, mas agora o terceiro elemento está nos bastidores, a disparar imagens e efeitos.

[o trailer de “Beastie Boys Story”:]

Spike Jonze, realizador de filmes como “Being John Malkovich” ou “Her” e de videoclips para gente como Sonic Youth, Daft Punk ou Arcade Fire, é um velho amigo da banda e fez também alguns dos seus vídeos mais famosos, nomeadamente o icónico “Sabotage”. Jonze conhecerá a história quase tão bem como os próprios Beastie Boys e talvez por isso deixe que ela seja contada sem grandes truques. Não há muitas câmaras, nem grande festa na edição, o fluxo do espectáculo foi respeitado com erros e tudo (ou talvez nem sejam erros, pode ser tudo encenação), mas há uma imensidão de imagens de arquivo em fotos e vídeo que sustentam toda a narrativa e que Mike D e Ad Rock contextualizam. É impossível não ficar agarrado ao ecrã e parar a imagem para ver as fotos com mais pormenor. Sobretudo as dos primeiros tempos, quando tinham 15 anos, acne e não se decidiam entre ter atitude ou ser só putos tímidos com vontade de fazer coisas.

Em 2020, Mike D e Ad Rock têm mais de 50 anos, estão grisalhos (Mike D pinta o cabelo, não se nota tanto). Chega a ser desconfortável chamar-lhes Beastie Boys, mas eles mantêm o mesmo ar, às vezes até o comportamento. Ainda sabem falar e fazer os moves dos putos reguilas que foram, mas apresentam-se com a consciência de homens experientes, que olham para o passado com sentido crítico e não têm vergonha de dizer que fizeram coisas muito erradas e pedir desculpa em público. Comovem-se, confessam-se, choram, contam piadas e histórias de antologia (Steven Seagal num concerto de Jimmy Cliff a tocar percussão é só uma delas…). Até se permitem embaraços públicos como mostrar partes de um filme de Hollywood em que Ad Rock fez figuras tristes. Serve para ilustrar a fase pós Licensed to Ill, em que cada um andou à deriva à sua maneira.

Beastie Boys. A história de três malandros que conquistaram o mundo com punk, hip hop e ativismo

A história começa com o encontro entre os três Beastie Boys em concertos de punk, fala dos primeiros contactos com o hip hop, dos tempos em que tinham uma baterista cool que conhecia muito mais música do que eles e que os ajudou a crescer musicalmente. Kate Schellenbach foi despedida, por ser rapariga, quando Rick Rubin entrou em cena, e é protagonista do grande mea culpa dos Beastie Boys, tanto no livro como no filme. Personificado nela, está o pedido de desculpa pelo mau comportamento que tiveram com as mulheres e também com os amigos que deixaram de reconhecer quando se tornaram famosos. Porque eles assumem que ficaram diferentes depois do sucesso de Licensed to Ill, da digressão com Madonna e toda a polémica mediática em seu redor.

Ad Rock fala de manipulação e Rick Rubin, estratega do sucesso dos Beastie Boys que toda a gente conhece e gosta, é apontado como um homem de negócios com grande capacidade de influência, interessado sobretudo em ser influente e fazer dinheiro; e Russel Simmons, um oportunista que só queria ter uma banda de hip hop com miúdos brancos. Rick Rubin e Russell Simmons eram os patrões da Def Jam, a editora dos Beastie Boys. “Eles queriam que nós fossemos um versão cartoon rap de uma banda de heavy metal dos anos 80, mas com Adidas e fato de treino”, diz Mike D a propósito do primeiro single “Rock Hard”.

Logo a seguir vem a história de como conseguiram abrir concertos para a Madonna em 1986: o manager de Madonna queria os Run DMC, mas eram caros, depois queria os Fat Boys, mas Russell Simmons, que não agenciava os Fat Boys, disse que estavam ocupados, e ofereceu os Beastie Boys por 500 dólares. O resto é história e fez primeiras páginas dos jornais — os Beastie Boys a insultar criancinhas em concertos e a fazerem de tudo para serem de facto umas bestas. Não há propriamente rancor. Tudo é dito num tom de conversa de amigos antigos que relatam, a outras pessoas, coisas que fizeram juntos. Nem tudo é bom, mas vem sempre alguma coisa a seguir.

A história da banda segue até ao seu fim, em 2012, com a morte de Adam Yauch, sublinhando sempre o facto dos Beastie Boys só se terem de facto encontrado depois de Paul’s Boutique, o brilhante e incompreendido segundo álbum e o inaugurar de uma nova fase na vida da banda (no fim de tudo, Steve Buscemi e Ben Stiller, entre outras personalidades também no espectáculo, fazem perguntas e tecem algumas considerações sobre o disco). Adam Yauch terá tido grande influência em todo o processo criativo de Paul’s Boutique, incluindo fotos e capa. Yauch, MCA, é, ao longo de todo o documentário, retratado como o irmão mais velho, mais culto, mais inteligente, mais curioso e inovador. O motivador de tudo o que faziam. No final sente-se que tudo isto, o livro lançado no ano passado, o documentário que agora podemos ver, é também para lhe prestar homenagem. E que tudo isto é um bonito elogio à amizade.

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3