Pelo menos quatro chefes da máfia foram libertados de estabelecimentos prisionais e estão em prisão domiciliária em Itália, por risco de infeção pelo novo coronavírus. Segundo o The Guardian, o número pode chegar às dezenas dado que estão detidos 74 chefes da máfia com mais de 70 anos e com problemas de saúde.

Tal como em Portugal, uma das medidas aplicadas em Itália durante o estado de emergência foi a libertação de alguns reclusos para evitar o risco de contágio dentro das cadeias. Por cá, a medida aplicou-se sobretudo aos mais velhos, detidos por crimes menos graves. No caso de Itália, o governo autorizou que algumas sentenças fossem cumpridas em casa se terminassem dentro de 18 meses. E essa permissão levou à libertação de, pelo menos, quatro líderes da máfia.

À CNN, Federico Cafiero de Raho, procurador antimáfia italiano, disse que três líderes da máfia foram libertados e estão em prisão domiciliária. Trata-se de Pasquale Zagaria, 60 anos, membro da máfia de Camorra em Nápoles, Francesco Bonura, de 78 anos, da “Cosa nostra” (que pode sair de casa para consultas médicas) e Vincenzo Iannazzo, de 65 anos, que faz parte da Ndrangheta − a máfia mais poderosa da Itália. O jornal italiano La Repubblica acrescenta que Rocco Santo Filippone, de 72 anos, também da organização Ndrangheta, foi libertado, uma vez que os juízes receavam que uma eventual infeção com Covid-19 fosse fatal para Filippone, que sofre de uma doença cardiovascular.

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“São prisioneiros que, devido ao papel que tiveram em organizações da máfia, requerem medidas de isolamento extraordinárias para evitar que estejam em contacto com o exterior”, frisou o procurador. “Assim que são enviados para casa, estas medidas deixam obviamente de ser aplicadas.

Segundo o ministério da Justiça italiano, desde 29 de fevereiro, o número de reclusos em Itália reduziu-se em 6.500 — valor que não se deve apenas à libertação de presos, segundo Alessio Scandurra, da associação Antigone, que defende os direitos de reclusos. A justificar o número, defende, está também o facto de o estado de emergência ter levado muitos magistrados a optarem por colocar novos reclusos em prisão domiciliária.

“É uma situação muito alarmante”, disse Leo Beneduci, secretário-geral do Osapp, o maior sindicato de guardas prisionais no país. “Em Itália, aproximadamente 12 mil membros de organizações criminosas estão detidos. Alguns guardas prisionais têm relatado que há reclusos a abraçarem-se com o alegado objetivo de aumentarem a possibilidade de contraírem o vírus e serem libertados da prisão”, denunciou, citado pelo The Guardian.

O jornal britânico acrescenta que o número de chefes da máfia libertados pode chegar às dezenas, dado que, atualmente, estão detidos 74 chefes da máfia com mais de 70 anos e com problemas de saúde — como Nitto Santapaola, de 81 anos, apelidado como o “chefe dos chefes” da máfia da Sicília ou Leoluca Bagarella, 78 anos, responsável por dezenas de homicídios.

O ministro da Justiça italiano, Alfonso Bonafede, esclareceu na quarta-feira que a decisão de libertar líderes da máfia não foi tomada pelo governo, mas por magistrados. O líder da oposição, Matteo Salvini, criticou a medida. “É uma loucura”, disse.