“Vejo que o desinfetante mata o vírus num minuto. Um minuto. Existe alguma forma de conseguirmos fazer isso [no corpo], por exemplo através de uma injeção ou uma espécie de limpeza? Eu não sou médico mas sou uma pessoa com um bom instinto (…) Suponhamos que atingimos o corpo com uma tremenda luz, quer seja ultravioleta quer seja apenas uma luz muito poderosa (…) Suponhamos que se leva a luz para dentro do corpo, o que podemos fazer através da pele ou de outra forma”. Donald Trump dixit, na passada quinta-feira.

Ao longo de mais de um mês, as conferências na Casa Branca dificilmente não davam notícia. Por serem longas, por terem o presidente dos EUA como protagonista. No entanto, aquelas frases ditas naquele contexto e até com aquela expressão corporal que mais parecia remeter para uma viagem a um passado onde Trump dava cartas na TV com o programa “The Apprentice” tiveram uma reação sem precedentes no país, com médicos, políticos e demais líderes da comunidade a pedirem por tudo às pessoas para que não fizessem algo que de repente passou a ser questão: ingerir (que se deve ler como não ingerir) desinfetante para combater o novo coronavírus.

Foi aí que começou a tentativa de spin da história: a primeira, em off, através do próprio staff, dizendo que tudo aquilo tinha sido mal interpretado; depois, já na sexta-feira, com Trump a disparar de forma agressiva para uma repórter a frase “Fiz a pergunta de forma sarcástica para jornalistas como você, para perceber a reação”; a seguir, a própria Deborah Birx, imunologista e conselheira da Casa Branca no combate à pandemia (faz mesmo parte da task force montada para a Covid-19) que ficou incomodada a ouvir aquelas frases, disse numa entrevista à Fox News que o líder tinha acabado de receber a informação e que ainda estava a “digerir”.

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Como nem isso foi suficiente, Trump teve a conferência mais curta esta sexta-feira (que não contou também com ninguém da equipa que faz a task force do combate à pandemia) e não respondeu a perguntas. Como também nem isso foi suficiente, este sábado não houve mesmo intervenção do presidente americano mais de um mês depois. Não houve ali, houve em tweets. Como um primeiro em que defendeu que afinal não estava a ter aquele diálogo para Deborah Birx mas sim para uma Laboratory Expert (que, subentende-se, deveria estar na sala). Ou um segundo a dizer que não valia a pena dar conferências porque só fazem perguntas hostis e escrevem mentiras.

Ainda assim, há uma história por contar e que explica o que se passou na quinta-feira, contada pela CNN.

William Bryan, o representante científico indicado pelo Departamento de Segurança Interna, partilhou na Situation Room da Casa Branca na quarta-feira as principais conclusões de um novo estudo realizado à task force do combate à pandemia. E um dos pontos até entroncava numa linha de raciocínio já defendida pelo presidente americano: a propagação do vírus é mais lenta com calor. Todos ouviram, todos entenderam que o melhor seria preparar de outra forma a apresentação dessa informação. Donald Trump, aí, não estava presente.

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Alguns dos presentes colocaram mesmo em dúvida as conclusões do estudo, na perspetiva da força que teriam para ser já alvo de uma divulgação pública. E logo com uma crítica à cabeça: Bryan tem uma larga experiência militar mas não é cientista nem tem passado como médico. Mike Pence, o vice-presidente do país, foi mais comedido. Na quinta-feira, às três da tarde, o responsável tinha a apresentação reformulada mas, mais uma vez, Trump não estava presente. Assim, o único contacto que o líder dos EUA teve com essas conclusões foi alguns minutos antes, na Sala Oval. Quando ouviu a explicação, Trump saiu “para fora de pé”. E disse o que disse.

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Em dois planos, ainda hoje, 48 horas depois, aquelas declarações têm o seu impacto. Por um lado, o Politico (que curiosamente tinha este sábado também uma grande entrevista a Joe Biden, rival de Trump nas próximas eleições) garantia que “alguns dos aliados estão a ficar preocupados pela forma como o presidente está a estragar as suas possibilidades de reeleição com o seu comportamento nas conferências de imprensa durante uma crise pública de saúde e económica”. Por outro, a ABC News relatava que já tinham sido feitas dezenas de chamadas para os números de emergência com intoxicações por desinfetante em vários estados do país.