“A política de saúde em termos de controlo da epidemia vai continuar a ter dois objetivos essenciais: reduzir a mortalidade e a gravidade desta e controlar a transmissão da Covid-19 a um nível considerado aceitável, com o tal ‘R’ relativamente contido“. Os objetivos foram claros e traçados de imediato logo no início da conferência de imprensa diária a propósito da situação sobre a Covid-19 em Portugal, pela ministra da Saúde, Marta Temido, um dia depois de o primeiro-ministro ter anunciado as medidas para preparar o desconfinamento do país.

A taxa de letalidade do vírus em Portugal é, neste momento, de 4%, de acordo com os dados apresentados pela ministra da Saúde, mas é muito superior (14,2%) nos indivíduos com mais de 70 anos. “Continuamos a ter 86% dos casos confirmados em casa e 3,5% internados”, o que significa que “2,9% estão em cuidados gerais e 0,6% em cuidados intensivos”, disse a ministra. 154 doentes estão em cuidados intensivos, menos 18 doentes do que ontem.

Sobre estes valores, Graça Freitas aproveitou para destacar que são níveis de letalidade que “estão de acordo com os gerais em outros países, exceto os que tiveram situação muito dramáticas”. “Todos os dias temos assistido a uma diminuição do número de óbitos”, de forma proporcional, destacou.

Quanto ao famoso “R”, o valor que mede a média de pessoas que um doente infetado contagia, a ministra da Saúde sublinhou que entre 23 e 27 de abril foi de 0,92, “com variações mínimas entre regiões”. O objetivo, garante, é que permaneça abaixo de 1.

“Vamos continuar a adotar medidas para controlar a transmissão do vírus e para reduzir e manter em níveis o mais baixo possível a mortalidade”, acrescentou Temido, relembrando que “a reserva estratégica de Equipamento de Proteção Individual (EPI), infraestruturas, recursos humanos e meios” estão preparados “para responder a um eventual ressurgimento de um novo surto epidémico”.

Os erros do passado: discrepâncias de dados e falta de acesso a dados de doentes em vigilância são “fragilidades”

Mas nem só de presente se fez a conferência de imprensa deste 1º de Maio. Questionada pelos jornalistas sobre a discrepância de dados que se registou na repetição sucessiva de dados do dia 25 de abril nos concelhos mais populosos, Graça Freitas explicou que o que terá provocado a confusão está muitas vezes no facto de os formulários preenchidos pelos médicos referirem a área de residência do doente e o local onde o caso ocorreu, que pode ser diferente.

Há um trabalho de conjugar fontes de informação diferentes, sendo que nem sempre corresponde o local de ocorrência ao local de residência”, diz, acrescentando que cabe depois às autoridades de saúde de cada local confirmar esses dados.

“É complexo, os dados concelhios devem ser entendidos como indicativos”, nota Graça Freitas, pedindo que se perceba as “fragilidades” do sistema. “São as pessoas que estão no nível local que conseguem confirmar se é ali que a pessoa está, ou se a infeção ocorreu noutro local”.

Outra fragilidade que ocorreu nos últimos dias e que foi reconhecida foi a falta de acesso da PSP a todos os dados sobre os as pessoas que estão sob vigilância, algo denunciado pela própria polícia no relatório sobre o estado de emergência. “É de facto uma tarefa complexa, a monitorização das pessoas que deviam estar em vigilância”, confessou Marta Temido. “As dificuldades de articulação [entre autoridades] estão a ser trabalhadas para que não se repitam”, assegurou a ministra da Saúde, sublinhando a necessidade de um “alinhamento total”.

Já a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, reforçou que “há uma grande cooperação entre as equipas de saúde pública e as autoridades de segurança”, mas fez notar que a PSP não tem de ter acesso aos dados de todas essas pessoas. “Se as pessoas estão contactáveis e a cumprir o que é dito, não é necessário fazer essa fiscalização”, acrescentou, destacando que há situações locais específicas.

Ainda sobre a estratégia de testes que tem sido aplicada até agora, Marta Temido acrescentou que os hospitais “têm alguns deles a realização destes testes em períodos de resposta mais curtos, de 45 minutos” e que está a ser feita uma distribuição dos testes rápidos “em função da necessidade dos hospitais”. Confirma que os hospitais da zona Norte foram os mais abrangidos até agora, por serem os que tinham mais necessidade, com os novos critérios a nível nacional a serem ainda trabalhados.

E, falando em testes, os jornalistas perguntaram se o facto de os doentes que estão em casa necessitarem apenas de um teste negativo para terem alta não poderia levar a situações de falsos negativos. Graça Freitas foi perentória: “O número de partículas virais destas pessoas é menor, por isso é que há países que já nem fazem testes a quem fica em casa, sendo que nós, por precaução, mantemos a obrigatoriedade de fazer um teste a estas pessoas ao fim de 14 dias, para doentes que ficaram em casa”, disse.

As previsões para o futuro: “O país está mais pronto agora e precisa de iniciar a reativação faseada da sua vida económica e social”

Quanto à fase que se iniciará a partir do dia 3 de maio, com o fim do estado de emergência e a reabertura de algumas lojas, Marta Temido quis deixar uma mensagem:

O país está mais pronto agora e precisa de iniciar a reativação faseada da sua vida económica e social, e sendo hoje o dia do trabalhador merece uma especial referência ao esforço dos que asseguraram o funcionamento do país nesta fase dura, e compete-nos a todos preparar as condições sanitárias para os que vão regressar ao local de trabalho com as maiores condições de segurança possíveis. E uma vez mais: apelar ao dever cívico de recolhimento e o apelo ao cumprimento das regras que para cada área vão sendo definidas e divulgadas”, afirmou.

Ainda a propósito desse dever cívico de recolhimento e sobre se os doentes crónicos podem ou não voltar ao trabalho, Marta Temido diz que a Autoridade para as Condições do Trabalho vai continuar a monitorizar o cumprimento das regras de saúde e segurança no trabalho — “a vigilância é um dos aspetos mais importantes nesta fase”.

Quanto ao dever cívico de recolhimento, a ministra confirma que se trata de um dever, não havendo quadro sancionatório. A ideia é que as deslocações se mantenham apenas para os motivos essenciais. Mas deixou um aviso: “Há algum alívio de algumas medidas, mas não se espera que na segunda feira os portugueses saiam à rua como se não estivéssemos debaixo de uma situação epidémica”, declarou, explicando que se mantém a questão da desobediência a uma autoridade se houver desobediência das regras das autoridades de saúde pública. “A DGS tem um poder de autoridade que tem de ser respeitado”, diz.

Ainda sobre a nossa fase em que o país entrará, Marta Temido garantiu ter confiança de que a obrigatoriedade de usar máscara nos transportes públicos, que entrará em vigor a 3 de maio, não será desrespeitada por haver falta de máscaras: Temos feito todos os esforços, quer através da importação, quer através da produção nacional, para que sejam disponibilizadas”, destacando que já há máscaras à venda em grandes superfícies comerciais. “A nossa expectativa é que consigamos manter este abastecimento constante”, assegurou.

O novo plano de desconfinamento, anunciado ontem pelo primeiro-ministro António Costa, foi classificado pela ministra da Saúde como “um roteiro que respeita aquilo que é uma previsão de evolução futura da epidemia num contexto favorável”, podendo ser possível “andar mais depressa” ou “devagar” consoante o contexto. E garantiu que em breve todos saberemos quais as normas que a DGS está a discutir com setores específicos para que estes retomem à normalidade possível: “À medida que forem sendo aprovadas, serão adotadas e conhecidas”.