Kevin Harrington tem 37 anos e 17 deles foram passados na Macomb Correctional Facility, uma prisão no sul do Michigan, nos EUA. O norte-americano estava a cumprir uma pena perpétua por um homicídio que sempre afirmou que não cometeu, como conta a NBC News. Em abril, um juiz reviu a sentença e deu-lhe a liberdade por ter concluído que o detetive que investigou o caso forçou uma testemunha a culpar Harrington. Contudo, agora, Kevin ainda terá que esperar para gozar a liberdade — por causa do novo coronavírus está em quarentena voluntária num hotel. Na prisão onde se encontrava detido, há 84 casos positivos de Covid-19 e quatro presos já morreram devido à doença.

Nunca senti nenhum sintoma. Contudo, pelo bem da minha família, vou sacrificar mais 14 dias”, afirma Kevin.

Ao sair da prisão, Harrington tinha à espera amigos e a família, incluindo a mãe. Não abraçou ninguém. Foi direto para o hotel onde ainda está a passar 14 dias isolado. Ao mesmo jornal, conta, contudo, que já sente muita diferença em relação ao tempos que passou na cadeia: “Pude encomendar comida. Pude assistir a Netflix. Pude dormir numa cama confortável”, desabafa. “Tem sido ótimo”, diz ainda. Na cadeia onde estava, o caso da pandemia era “sério, sério, sério”, como descreveu. “Pense num ambiente fechado com um vírus desenfreado a espalhar-se”.

Harrington falou com este jornal apenas dois dias depois de ter sido libertado e contava que tinha consigo apenas o que levou da cadeia: um livro de orações diárias, quatro sacos com documentos legais e um saco com fotografias da família. “Foi tudo o que tive durante 17 anos, seis meses, dois dias e 35 minutos de rapto”, disse Harrington. “Gosto muito de chamar de sequestro. Porque raptar significa levar alguém para um lugar que essa pessoa não quer sem o consentimento e/ou vontade deles”, explica também.

Vejo isto como um capítulo encerrado na minha vida e este novo capítulo é tão brilhante e bonito. É quase um período de transição para mim. E por estar aqui [no hotel], não volto à azáfama da vida depois de tanto tempo fora”, disse Harrington por telefone ao jornalista da NBC News.

A primeira refeição de Harrington depois de sair da prisão foi um hambúrguer com queijo acompanhado de batatas fritas. À sobremesa, comeu uma fatia de cheesecake. A estadia no hotel está a ser paga pelo Michigan Innocence Clinic, um programa da faculdade de Direito da Universidade do Michigan que ajudou Harrington e George Clark, o alegado parceiro no homicídio que ditou a detenção de ambos, a conseguirem a liberdade. Inicialmente, o apoio não ia cobrir refeições por falta de fundos, mas depois de se ter promovido uma angariação de fundos para ajudar Harrington conseguiu-se o dinheiro necessário para também assim ajudarem este ex-presidiário em apenas duas horas.

Este sábado, o El País também expôs esta história. A este jornal, Harrington conta como tem aproveitado os avanços digitais que não pôde utilizar nos últimos anos. Agora, tem um iPhone e utiliza o serviço de videochamadas Facetime para falar com a família. “Ver pessoas a falar no telefone é ótimo, não acha?”, diz a quem o entrevista. No entanto, assume que o que não esperava mesmo era este vírus.

Clark e Harrington estão agora a preparar uma ação contra o estado do Michigan e os detetives envolvidos neste caso pelo facto de terem sido presos injustamente. Ao todo, querem ser compensados em 50 mil dólares (cerca de 45,7 mil euros) por cada um dos 17 anos em que estiveram privados da liberdade. O advogado de ambos, Wolfgang Muller, diz sem rodeios: “Espero completamente responsabilizar a polícia pelo que aconteceu aqui. Claramente incriminaram-nos”. O responsável da prisão de Inkster, a cidade onde ocorreu o homicídio, avançou que os detetives já saíram da polícia e que quer uma investigação externa.

Na cadeia de Clark, o Lakeland Correctional Facility, há 393 casos confirmados de Covid-19 e já morreram 9 pessoas. “Nunca perdi a esperança de que um dia isto acontecesse”, assume. Este ex-presidiário está também em isolamento social, mas na casa de familiares no estado do Michigan.

Em 2002, por ter ido para a prisão, Harrington teve de abandonar as aulas que estava a ter na universidade de Wilberforce, no estado do Ohio. Era a primeira pessoa da família que estava a frequentar o ensino superior. Clark não pôde continuar a dar auxílio à mãe que tinha diabetes e morreu dois anos de este ter sido preso. “Basicamente, quando ela descobriu o que fizeram comigo, desistiu”, afirmou ao mesmo jornal. “Isto é algo com que tenho que viver”, disse ainda. Mesmo assim, espera que a mãe consiga ver o que aconteceu que “a justiça prevaleceu”.

Um caso sem provas que pôs dois homens 17 anos atrás das grades

Harrigton e Clark foram presos devido, principalmente, a um testemunho. O caso por detrás desta sentença remonta a setembro de 2002, quando Michael Martin foi encontrado morto. Uma mulher disse o que viu, mas nunca disse que sabia quem tinha alvejado Martin. Contudo, o detetive responsável pela investigação, Anthony Abdallah, terá ameaçado esta testemunha para conseguir o relato que queria.

Numa transcrição na altura citada pela NBC News, lê-se a conversa entre a testemunha e Abdallah: “Você acordou a meio da noite e viu alguma coisa”. “Não, não”, disse a mulher dito. Depois, Abdallah parece ameaçá-la durante o interrogatório: “Não queremos deixá-la aqui e permitir que alguém leve os seus filhos, ok?”.

Depois de coagida, e de ter afirmado que não tinha visto nada, esta testemunha afirmou o contrário e alegou que Harrington e Clark estiveram no local do crime a arrastar o corpo. Clark tinha 31 anos na altura, mais 11 do que Harrington. A única coisa que os une era a origem: cresceram nos mesmos edifícios de habitação social. Não havia provas físicas, mas, mesmo assim, um júri considerou-os culpados e receberam penas perpétuas.

Até 2015, Harrington tentou todos os recursos que tinha ao alcance, mas sempre sem sucesso. Contudo, em 2019, após uma investigação a Abdallah ter mostrado “um padrão perturbador no comportamento que envolvia ameaçar e coagir testemunhas”, de acordo com o gabinete do procurador deste estado, tudo mudou.