Título: Santos, Heróis e Monstros. O claustro da Abadia de Santa Maria de Celas
Autora: Carla Varela Fernandes
Edição: Edições Colibri
Design: Nuno Vale Cardoso
Páginas: 224, ilustradas, bilingue
Preço: 24 €

A capa do livro de Carla Varela Fernandes

Coimbra vive um lento mas claríssimo processo de esboroamento cultural a que ninguém parece querer deitar mão (e não se vê que um centro de arte contemporânea seja, por si ou por si só, o melhor caminho para reverter esse declínio acentuado), mas como cidade românica, renascentista, barroca conserva tesouros admiráveis, que lá vão persistindo apesar dos castigos que o tempo e os homens lhes inflingem. Tesouros discretos como o estudado por este importante livro de Carla Varela Fernandes (1970-) dedicado ao claustro da abadia de Santa Maria das Celas de Guimarães — erguida próximo a 1221-27 por iniciativa da princesa D. Sancha (1180-1229), no vale de Vimaranes — e que pôde contar com o providencial patrocínio financeiro da Fundação Millenium BCP, instituição privada que se vem destacando da melhor forma possível neste domínio (ao contrário do banco público, que não liga pêva à reabilitação, conservação e divulgação do património nacional).

O livro pretende homenagear “os historiadores da Arte portuguesa dos finais do século XIX e primeira metade do século XX que se interessaram mais sobre este claustro e sobre a sua parcial destruição” (p. 7), e de facto é em diálogo ou em contraponto com Vergílio Correia e outros do seu tempo, mas também com Paulo Varela Gomes e Walter Rossa (1996, 2000) ou Francisco Teixeira (tese doutoral, 2007), que Carla Varela Fernandes vai avançando no comentário ao único sobrevivente dos claustros medievais portugueses com cenas historiadas e personagens isoladas, e obra mais singular ainda por ter sido de artistas itinerantes, sem outros trabalhos reconhecíveis na região centro do país, verdadeiro epicentro da nossa arte da pedra. Além disso, é o próprio modelo dito rotunda da arquitectura do edifício — uma igreja de planta centralizada — que se distingue de quaisquer outras casas cistercienses masculinas, e também de muitas femininas desta ordem religiosa (p. 17), mas tem antecedentes ilustríssimos como a igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém ou o Panteão de Roma. A princesa, tia de D. Sancho I, aproveitou o facto de não haver no país precedentes tipológicos para igrejas de freiras cistercienses para fundar essa originalidade, inspirada no templo redondo de Santa Maria de Alenquer, a que também esteve ligada.

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