Valéria trabalhava no setor da restauração, mas a pandemia de Covid-19 tirou-lhe o emprego e o teto. O centro de acolhimento de emergência para sem-abrigo do Casal Vistoso, em Lisboa, foi a forma de não “cair” na rua.

Passa pouco das 14h e dezenas de pessoas estão concentradas num espaço de convívio, logo à entrada do edifício, a ver televisão, uma atividade a que a maioria não está habituada.

Num pavilhão onde deixou de haver desporto, 95 pessoas de diversas nacionalidades em situação de sem-abrigo têm agora onde dormir, fazer a higiene pessoal, acesso a cuidados de saúde, apoio social e a um conjunto de atividades desportivas e culturais.

Valéria Mendes, de 54 anos, perdeu o seu emprego como copeira. Depois, a senhoria pediu que saísse do quarto onde habitava. Procurou um assistente social, mas não conseguiu.

Até que soube da existência do centro de acolhimento de emergência para sem-abrigo, instalado temporariamente no Pavilhão do Casal Vistoso – um dos quatro que a Câmara de Lisboa já criou –, e que salvou esta cidadã a “recibos verdes” de um destino quase certo: “cair” na rua.

A resposta dada no Pavilhão do Casal Vistoso, na freguesia do Areeiro, pretende ser mais do que um centro de acolhimento, diz quem ali trabalha.

São até realizadas semanalmente assembleias gerais: “a pedra toque para garantir a melhoria do comportamento, a melhoria da socialização das pessoas e também para encontrarem regras que sejam aceites e assumidas por cada um e por todos”, diz à Lusa o vereador dos Direitos Sociais da Câmara de Lisboa, Manuel Grilo (BE).

Se não tivesse essa ajuda aqui, eu estaria a dormir debaixo de uma arcada como muitos aí que não conseguiram lugar. Muitos brasileiros amigos meus foram dormir no aeroporto, para tentar ir embora. 30 dias abandonados no aeroporto”, conta Valéria, em declarações à agência Lusa.

Agora, com o apoio de técnicos e voluntários, está à procura de trabalho e a tratar da documentação necessária para obter uma autorização de residência temporária em Portugal, estando convicta de que conseguirá sair do centro de acolhimento com o documento e arranjar um novo emprego que lhe dê sustento.

“A área que eu trabalho é a da restauração e, então, praticamente só vamos ter mercado de trabalho quando abrir a restauração. Portanto, eu sou copeira, eu necessito que abram os hotéis, que abram as empresas, que abram os restaurantes, para eu poder voltar a ter minha vida normal”, nota Valéria, minutos antes de ir para a aula de biodança, num pequeno pátio interior.

Rúben Pinheiro, de 22 anos, também ficou sem-abrigo depois de ter perdido o emprego que tinha num restaurante. O jovem relata à Lusa que não conseguiu pagar a renda, “perdeu as coisas” numa sexta-feira e teve de passar um fim-de-semana na rua. “Ninguém merece viver na rua. É uma situação muito negativa”, lamenta.

Neste momento, estou numa fase complicada. Vim aqui parar. Felizmente, já estou arranjado por assim dizer. Já me conseguiram um emprego, já me conseguiram melhorar, endireitar, dar um rumo à minha vida”, conta à Lusa, com a esperança de que “tudo se vai emendar outra vez”.

Inspirado por estar a ser ajudado, Rúben também está a ajudar os que necessitam, através da distribuição de cabazes. “Eu posso dizer que sendo ajudado inspirou-me a ajudar e estou neste momento a trabalhar no Banco Alimentar e a distribuir alimentos para as pessoas que precisam“, diz.

O Pavilhão do Casal Vistoso conta com dois grandes espaços de dormitório, um para homens e outro para famílias, mulheres e pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo (LGBTI). Cães também são permitidos. Neste espaço, as camas alinham-se com a devida distância de segurança.

De acordo com o vereador dos Direitos Sociais, estas respostas dadas nos quatro centros de acolhimento de emergência para pessoas em situação de sem-abrigo são para continuar.

“Há de haver um momento em que cada um deles [espaços] terá de ser devolvido seguramente e, portanto, teremos até lá que encontrar respostas para cada uma dessas pessoas (…). Mas não deixaremos ninguém na mão, isto é, não deixaremos ninguém para trás. Encontraremos soluções”, garante Manuel Grilo.

Apesar de não ter uma nova contabilização do número de pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa, o autarca não tem dúvidas: “há hoje mais do que havia há um ano, provavelmente muitos mais”.

Houve muitos que chegaram à rua há muito pouco tempo. Houve muitos que vieram de outros concelhos, do resto do país, para a cidade de Lisboa”, afirma. Outros chegaram ao Casal Vistoso e “não puderam entrar porque estava lotado”, acrescenta o responsável pelos Direitos Sociais na autarquia da capital.

Jorge Costa, de 53 anos, ficou sem-abrigo pouco antes da pandemia, depois de ter ficado desempregado há dois anos. Esteve a viver na rua até encontrar o abrigo onde agora se encontra. Lamenta que o mundo esteja quase fechado lá fora. Não há carros para arrumar e arranjar emprego não está a ser tarefa fácil.

“Mas também é uma faca de dois gumes porque se não fosse o vírus não estaríamos aqui. Portanto, isto é um bocadinho ingrato. Mas pronto. É melhor estar aqui do que estar na rua. O senhor está a olhar para mim, eu tenho um banhinho tomado, não estou despenteado, não cheiro mal”, ressalva.

Os espaços são desinfetados diariamente e são garantidos equipamentos de proteção aos técnicos e voluntários de modo a evitar que transportem o vírus para dentro do pavilhão.

Para já, aos utentes, não estão a ser distribuídas máscaras nem são realizados testes à Covid-19. Ainda assim, quando saem e voltam a entrar no edifício é-lhes medida a temperatura. “Entre eles, até agora, não houve nenhum problema”, salienta Manuel Grilo.

Tomás Santos (texto), Jorge Coutinho (imagem)