O primeiro encontro entre quem escreve estas linhas e quem fala entre aspas foi em 2016. Estávamos nas vésperas do NOS Primavera Sound e os Car Seat Headrest tinham acabado de editar Teens of Denial, pela Matador – primeiro disco de originais pela editora nova-iorquina depois de Teens of Style (2015), uma compilação dos 11 discos que Will Toledo, ainda a solo e no banco de trás do seu Toyota Sienna 2000, gravou em casa e lançou no bandcamp. Quando o vimos, já com a banda que hoje forma o conjunto – Seth Dalby (baixo), Ethan Ives (guitarra) e Andrew Katz (bateria) –, não deixavam de parecer um bando de putos saídos da escola a fazer rock’n’roll sem manias. Os nervos estavam lá, mas não deixou de ser um dos melhores pratos da ementa dessa edição do festival.

Quatro anos volvidos, os Car Seat Headrest são hoje uma das bandas independentes mais requisitadas dos festivais de música. Foi um fartote de estrada de 2016 a 2020. Pelo caminho, reeditaram Twin Fantasy (2018), disco que Toledo havia feito em 2011 por sua conta. E no ano passado editaram um trabalho ao vivo a que decidiram chamar Commit Yourself Completely. Foram etapas que antecederam este novo álbum, Making a Door Less Open, editado no passado dia 1 de maio.

[“Hollywood”:]

Quatro anos que elevaram o estatuto dos Car Seat Headrest, mas que não parecem ter mudado assim tanto a mente criadora que sustenta o nome do grupo. Ainda tem nervos antes de subir a palco e ainda tem o Toyota Sienna: “Não sei bem, acho que foram quatro anos de aprendizagem, de tentativas de diferentes coisas. Tento sempre pensar dia-a-dia, mas, de facto, temos passado bastante tempo em estrado desde essa altura e agora. Isso faz-nos passar por vários estados mentais e vários sentimentos. Mas, basicamente, não me sinto super diferente do que era nesse tempo, sinto, isso sim, que estou quatro anos mais velho”, considera Will Toledo, ao telefone.

Fala-nos a partir de Seattle, cidade para onde se mudou nos primeiros anos da década que agora se conclui, cidade que significou um esforço de maior socialização deste geek solitário que passou anos a cheirar a estofo de carro. É de sua casa que nos fala, onde tem passado esta quarentena.

“Não tenho feito grande coisa, para dizer a verdade. Tenho tentado trabalhar em coisas inacabadas, em projetos nos quais estou envolvido, mas que não consegui acabar ou não daei grande atenção. Os meus colegas de casa fizeram um disco que produzi, mas que também ainda não consegui bem acabar, portanto é a próxima tarefa da minha lista. E, ao mesmo tempo, tenho feito live streams, uma vez por semana, apenas a tocar guitarra e a fazer algumas músicas”, conta.

Quatro anos de um envelhecimento ou de um amadurecimento, no caso de querermos ser mais positivistas, e de dois objetos – Twin Fantasy e Commit Yourself Completely – que serviram como uma antecâmara para o que estava por vir, para aquilo que agora já nos consome os ouvidos e as ideias: Making a Door Less Open, o segundo disco de material novo desde que os Car Seat Headrest são catálogo da Matador.

[“Martin”:]

“Sim, talvez, trabalhar nesses objetos me tenha empurrado para aquilo que já estávamos a fazer, que era o Making a Door Less Open. Principalmente o disco ao vivo, onde só tens as gravações e tens que trabalhar com as mesmas. Gravar ao vivo é sempre estranho e é preciso, de alguma forma, torcer as coisas para soarem melhor do que as músicas originais. Portanto, eu queria fazer o contrário para este disco, começar com as gravações que soavam bem e começar a limar e construir coisas sonicamente em cima delas. Acho que dessa forma temos um melhor nível de controlo e essa é uma das razões pela qual o disco está cheio de samples e foi feito mais no computador, agrada-me a ideia de conseguir fazer cada batida na bateria soar bem”, explica Toledo.

Will Toledo no festiva de Paredes de Coura, em 2017

Ainda que os primeiros pensamentos sobre este novo LP tenham surgido em 2016, a coisa, como sempre, foi maturando em mesas de bastidores, em concertos que iam dando, numa espécie de travessia atribulada que sempre temos de percorrer para chegar de A a B. Uma primeira demo de “Weightlifters”, canção de abertura, foi feita em 2018. E depois foi um ano totalmente focado na construção e gravação deste Making a Door Less Open. A sobreposição de formas que Toledo queria dar às canções fê-lo até gravar o disco duas vezes, uma em estúdio, em formato banda de rock, e outra em ambiente de computador:

“Foi uma boa oportunidade para criar mais material do que aquele que precisávamos. É melhor trabalhar com muito e depois ir editando. E, ao mesmo tempo, foi uma forma de não fazer o disco totalmente por MIDI. Interessou-me injetar estas diferentes peças e energias”, garante.

E há pelo menos uma certeza assim que colocamos os pés naquilo que agora nos mostram: este é, claramente, o mais exploratório material de Car Seat Headrest. Há um desejo latente de ser outra coisa, seguramente diferente daquela que se era antes. Uma espécie de libertação do rock que havia sido, até aqui, a baliza destes quatro rapazes. Não deixa de parecer lo-fi, não deixa de querer ser OVNI, mas é-o de forma mais atabalhoada – e esta é uma palavra que nem sempre tem que ter uma conotação negativa. É-nos difícil situar, ouvir Making a Door Less Open como habitualmente se ouve um disco. É, alias, bem possível, estimado leitor, que se veja forçado a erguer o rabo da cadeira depois de franzir a sobrancelha perante os primeiros acordes do disco, que são também os primeiros de “Weightlifters”, uma canção cujos momentos iniciais podiam bem ter sido roubados a um qualquer megafone de uma mesquita numa cidade no Médio Oriente.

A capa de “Making a Door Less Open”

Há como que uma chamada para a oração que é entrar neste universo, agora desconexo, dos Car Seat Headrest. “Sim, claro, percebo porque é que dizes isso, tem um lado de música não-ocidental. No geral, neste trabalho, estava à procura de um som que não fosse música pop ocidental ou pelo menos não numa escala tradicional. Houve um tempo em que estive muito numa de música religiosa e até música tradicional judaica, é uma forma muito poderosa de fazer música, é muito mais hipnótica, coloca-te numa espécie de transe. E eu gosto disso, põe-te num lugar diferente a nível mental”, desabafa o líder da turma.

Prosseguir por aí fora é perceber que depressa mudamos de geografia. Com especial destaque para uma vontade tão triste quanto funk de “Can’t Cool Me Down” ou para a raiva e urgência presente na voz e nas cordas da bem rockeira “Hollywood”. E toda esta anti-coesão não é obra do acaso, é método:

“Definitivamente comecei a pensar mais na canção como a unidade em que estava a trabalhar. E isso reflete um bocado o que me estava a acontecer e ainda acontece, que é saltar muito de música para música, de artista para artista, portanto, pareceu-me mais honesto, se estava a viver assim, escrever dessa maneira. Pensar em cada faixa e tentar que funcionem sozinhos, e, portanto, o disco acaba a parecer um sampler, cada canção é um mundo particular onde se pode sempre voltar para observar de forma mais profunda”, diz Toledo.

O mesmo para quem a ansiedade e nervos de tocar perante uma audiência – que, em sendo muito fã, pode até contar o número de vezes que pestaneja por minuto – sofre agora uma reviravolta. Nas imagens promocionais que acompanham o disco, Toledo surge de máscara – e uma máscara a sério, sacada de um qualquer cosplay intergaláctico. E já prometeu que, quando voltarem a atuar ao vivo, é com ela colocada que vai ser o vocalista dos Car Seat Headrest. É como que um alter-ego do frontman, chamado Trait, e que é resultado de 1 Trait Danger, projeto que partilha com o baterista Andrew Katz. No texto que acompanha a edição de Making a Door Less Open, Toledo, aliás, Trait, cita Bob Dylan: “if someone’s wearing a mask, he’s gonna tell you the truth… if he’s not wearing a mask, it’s highly unlikely”.

[“Can’t Cool Me Down”:]

Frase com a qual – agora sim – Will Toledo concorda bastante e que é uma espécie de justificação para a máscara: “Quando se fala para muita gente sinto que é muito pouco provável que se possa ser 100% honesto, não é como falar com alguém individualmente. Não confio muito nessas pessoas que o fazem, que falam para multidões e querem parecer totalmente genuínos. Tenho uma pontada no estômago quando vejo artistas que são muito bons no Twitter, por exemplo, têm milhões de seguidores e interagem como se fossem adolescentes e se divertem com o que escrevem. Não me parece genuíno. Prefiro a ideia de insegurança, parece-me mais verdadeira. E a máscara é uma forma de líder com essa sensação. E, ao mesmo tempo, oferecer algo de engraçado para o imaginário deste disco e para os concertos que se seguirão”.