A venda de livros é a forma encontrada por um poeta cabo-verdiano para arrecadar dinheiro para montar cestas básicas destinadas a famílias de um bairro na cidade da Praia, mais afetadas pela crise provocada pelo novo coronavírus.

Denominada “Livros por pão”, a iniciativa é do poeta cabo-verdiano Ary Reis, também mentor de “Amigos dos Livros”, um projeto criado em 2018 que recebe livros a partir de doações para depois os oferecer a várias instituições na cidade da Praia.

Entretanto, com a crise provocada pela Covid-19, Ary Reis disse à Lusa que teve que interromper todas as suas atividades e ficou em casa a pensar no que fazer no período de quarentena imposta pelo estado de emergência em vigor na ilha de Santiago há mais de um mês.

Primeiro lançou concursos de livros na internet, mas há dois dias criou o “Livros por pão”, isso depois de passar numa rua onde mora, em Achada de Santo António, e constatar que muitas pessoas se dirigiam na sua direção para pedir dinheiro.

“Percebi que há uma necessidade que tem que ser colmatada”, referiu o poeta cabo-verdiano, para quem esta foi uma decisão difícil, porque a venda de livros não é a política do projeto “Amigos dos Livros”.

“Mas surgiu a pergunta: porquê não transformar livros em cesta básica?”, continuou Ary Reis, explicando o projeto: uma pessoa compra um livro, que lhe será entregue em casa, e o valor arrecadado permitirá montar cestas básicas, no valor de 1.500 escudos (13 euros), que serão distribuídas às famílias mais necessitadas.

Lançada há dois dias na internet, a iniciativa já recebeu 20 livros do poeta cabo-verdiano Tchalé Figueira e já tem também um lista de 17 pessoas que manifestaram intenção de fazer a sua doação.

Além disso, Ary Reis avançou que vai abrir mão de parte do acervo que tem em armazém e alguns livros da livraria pessoal para colocar à venda, a um preço de 750 escudos (6,8 euros), incluindo o serviço de entrega.

O foco será em Achada de Santo António, por causa de alguma dificuldade de deslocação, mas conforme a adesão das pessoas, afirmou que o projeto poderá crescer para outros bairros da capital do país, que também enfrentam dificuldades.

O promotor aproveitou para referir que os livros são plastificados e garantir que a sua entrega é feita respeitando todos os procedimentos de segurança sanitária, recomendados neste período de crise provocada pela covid-19.

Além de oferecer livros a várias instituições, Ary Reis disse que um projeto maior é criar uma livraria comunitária em Achada de Santo António, o bairro mais populoso de Cabo Verde, com todos os livros que já tem em stock.

“Terá como finalidade não só estimular a leitura, mas também prestar um serviço de formação dos jovens, consciencializá-los em relação ao alcoolismo, drogas, violência e outros males sociais”, traçou Ary Reis, que diz que os livros e a poesia salvaram a sua vida.

Nas declarações à Lusa, recordou que já teve um problema de alcoolismo, e agora usa a sua experiência com livros e escrita criativa como ferramenta para libertar desses males sociais.

Neste sentido, apelou a todas as pessoas que estão a viver este período de isolamento social para usarem os livros para “abrir janelas e alcançar mundos” físicos, espirituais e mentais.

Cabo Verde regista 191 casos acumulados de Covid-19, distribuídos pelas ilhas de Santiago (132), Boa Vista (56) e São Vicente (3), e 38 considerados recuperados.

Em todo o país, duas pessoas acabaram por morrer, na Praia e na Boa Vista, e dois turistas estrangeiros, também infetados, regressaram aos países de origem, totalizando por isso 149 casos ativos em Cabo Verde.