Foi um dos músicos mais influentes do mundo e, no entanto, é um enigma. Florian Schneider, fundador, com Ralph Hütter, dos Kraftwerk, morreu, aparentemente na última semana de Abril, mas a notícia chegou apenas a 6 de maio. Até na morte manteve as emoções a uma “distância de segurança”, postura em sintonia com a época, poderíamos dizer, mas que assumia na perfeição desde sempre, enquanto homem robot e, ao que parece, como pessoa também.

Dele pouco se sabe. Tinha uma filha, muito sintetizadores, era de boas famílias, o pai era um arquiteto modernista, Paul Schneider Esleben. Cresceu com o conforto e os hábitos de um contexto relativamente aristocrático, e, aos 20 anos, em 1967, tinha a curiosidade de um jovem atento aos múltiplos estímulos artísticos que marcavam a época. Gostava de música, tinha dinheiro e queria fazer diferença na efervescência cultural alemã dos anos 60.

Morreu Florian Schneider, fundador dos Kraftwerk e referência da música eletrónica

Florian Schneider e Ralph Hütter conheceram-se em 1968, no Conservatório de Dusseldorf, e criaram um grupo chamado Organisation que chegou a editar um disco, Tone Float, em 1970. Logo depois, por vontade de novas experiências, e sob influência de Stockhausen e dos Beach Boys, criam o estúdio/quartel general Kling Klang e começam a experimentar fazer música como Kraftwerk. No início, Florian tocava essencialmente flauta mas, à medida que foi descobrindo formas de a processar e ganhando interesse por sintetizadores, foi perdendo interesse pelo instrumento original.

Consta que a ideia dos Kraftwerk usarem fatos austeros e cabelo bem penteado, a imagem de marca que os tornou populares, foi de Schneider. Ao que parece, era um grande admirador de roupa dos anos 50 e, por causa disso, os outros elementos da banda tiveram que cortar o cabelo e adotar um ar aprumadinho quando lançaram Autobahn, o álbum “elogio” da autoestrada e das viagens em automóvel, que definiu o som dos Kraftwerk tal como o conhecemos, depois de três discos à procura de uma identidade (discos que os Kraftwerk não consideram parte da discografia oficial).

Vem contado no livro I Was A Robot, de Wolfgang Flür, publicado em 1999. Flür, baterista, foi elemento dos Kraftwerk entre 1973 e 1987, e foi processado por Schneider e Hütter por causa desse livro, que também fala, por exemplo, da paixão de Schneider pelo ciclismo e como, a determinada altura, a bicicleta se transformou numa espécie de alternativa ao sintetizador. Segundo Flür, Schneider e Hütter eram fanáticos, compravam as melhores bicicletas, com peças à medida, usavam roupa a rigor, cara e vistosa, eram competitivos entre si e acompanhavam as provas. Tour de France, de 1983, é mesmo uma ode ao ciclismo e à lendária prova francesa.

Por pouco que saibamos sobre o homem por detrás do robot com ar de manequim de montra, a verdade é que a música dos Kraftwerk diz mais sobre Florian Schneider do que qualquer dado biográfico, e é suficiente para atestar a sua genialidade. O som que os Kraftwerk criaram mudou a música pop para sempre e a sua influência continua a fazer-se sentir décadas depois, num efeito de eterna propagação.

É verdade que os Kraftwerk não eram apenas Florian Schneider, mas ele e Hütter concentraram todas as decisões, artísticas e empresariais, é deles a maior parte do crédito. Tiveram consigo bons “assalariados” como Karl Bartos e Wolfgang Flür, mas a sua autodeterminação sempre foi relativa e ambos acabaram por abandonar o projeto sem que isso significasse o fim dos Kraftwerk. O próprio Schneider deixou de trabalhar com os Kraftwerk em 2009 (data do anúncio oficial, provavelmente aconteceu anos antes) e a banda continua a dar concertos, talvez porque a ideia dos robots por eles desenvolvida dispense de facto pessoas, pelo menos pessoas específicas.

Os Kraftwerk pertencem ao restrito grupo de originais que de facto criaram algo de profundamente novo que mudou radicalmente a música e a forma de a fazer. Além disso, transcenderam a ideia de banda pop, cultivando o mistério, o ar esfíngico e a ironia, evitando entrevistas e o contacto com o público, ou arranjando entidades substitutas para dar rosto à sua música mecânica. Primeiro foram “Showroom Dummies”, depois passaram a “The Robots”. Tinham uma visão e concretizaram-na.

Num cenário hipotético de cataclismo cultural em que fosse preciso retirar os Kraftwerk da história, as consequências seriam dramáticas. Bowie que até dedicou uma canção a Florian Schneider (“V-2 Schneider” no álbum Heroes, de 1977) e a quem os Kraftwerk devolvem a atenção com uma citação direta na letra de “Trans Europe Express” (também de 1977), provavelmente não seria o mesmo.

Giorgio Moroder, provavelmente, não teria criado a linha de sintetizador de “I Feel Love” de Donna Summer. Toda a pop eletrónica de finais dos anos 70, inícios dos 80, bandas como Depeche Mode, Human League, Gary Numan, Orchestral Manoeuvres in The Dark, não teriam existido. Até Joy Division e New Order citavam a influência de Kraftwerk e Siouxsie and the Banshees ou U2 fizeram versões (na verdade quase toda a gente tem versões de Kraftwerk, dos Coldplay aos Big Black de Steve Albini, Ballanescu Quartet fez com cordas, Señor Coconut/Uwe Schmidt transformou em vários de ritmos latinos). Afrika Bambaataa não teria feito Planet Rock (sampla Trans Europe Express). Os pioneiros do techno de Detroit não teriam tido território para germinar as suas ideias. É seguro dizer que, sem os Kraftwerk, a música que ouvimos hoje não seria a mesma. Foram eles que nos fizeram gostar de música feita por máquinas

Nem todos os discos dos Kraftwerk são obras primas. A partir dos anos 80 a sua produção ficou mais escassa e desinteressante. Mas Computer World, de 1981 é um disco perfeito e encerra um ciclo de ouro que começou em 1974 com Autobahn, seguiu com Radio-Activity, Trans Europe Express e Man Machine, o disco de “The Model” e “The Robots”. Todos, juntos ou em separado, mudaram vidas, fizeram com que outras pessoas quisessem fazer música com sintetizadores e por isso mudaram a história.

Por serem tão influentes, há quem lhes chame os Beatles Eletrónicos, mas os Kraftwerk não precisam de comparações. Ultrapassaram o krautrock com estilo e distância, sobreviveram ao punk com respeito mútuo e sem uma ruga nos fatos, assumiram-se robots e foram deixando descendência sem nunca perder a compostura. Ainda hoje os Kraftwerk representam o futuro. Eles foram, e continuam a ser, um modelo.