Artigo atualizado.

Mais de um mês e meio após o primeiro decreto de estado de emergência em Portugal, 93% das empresas do setor da ourivesaria afirmam ter a atividade afetada de forma “extremamente grave”, o que corresponde a uma redução superior a 50% na faturação. Os dados são da AORP — Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, que revelou esta semana os resultados de mais um inquérito feito a 78 empresas, depois de um primeiro levado a cabo no final de março.

O setor digere agora as consequências do encerramento das contrastarias da INCM, entre 16 de março e 3 de maio. Sem forma de garantir a certificação obrigatória das peças, o bloqueio foi inevitável. A isso há que somar a natural retração do consumo, o encerramento das lojas e à afetação dos recursos humanos, na sequência das medidas de contenção do novo coronavírus.

Joalharia portuguesa. Sem certificação e com a redução de encomendas, setor vê-se bloqueado

Mas a suspensão da certificação não é a dificuldade identificada por mais empresas. Destas, 50% apontaram o stock parado na sequência do encerramento das contrastarias, porém 71% referiu a quebra na procura e ainda 59% o cancelamento de encomendas como principal consequência da pandemia no negócio.

O impacto é de facto assustador. Este período de confinamento determinou uma paragem quase total do setor”, afirma Fátima Santos, secretária-geral da AORP, ao Observador.

As tão essenciais contrastarias reabriram esta semana, mas a dirigente da principal associação do setor perspetiva meses complicados pela frente, sobretudo por não se tratar de um bem de primeira necessidade. “Acreditamos que há empresas que não vão resistir”, sublinha. Apesar das especificidades do setor, onde predominam a micro empresas, pode dizer-se que as empresas aderiram em massa ao layoff60,3% optaram pelo regime total, 11,5% estão em layoff parcial, enquanto 14,1% encerraram atividade. Mais de metade das que aderiram ao lay-off esperam retomar a atividade durante o mês de maio. “Avizinham-se meses muito complicados”, refere Fátima Santos, que assinalada que o contexto familiar de muitas empresas dificulta, ainda assim, a perceção do real impacto da pandemia no setor.

Muitas têm apenas dois trabalhadores. Um casal, por exemplo, que, mesmo que tenha suspendido a atividade, vai fazer tudo o que está ao seu alcance, apertar o cinto, para conseguir retomar”, descreve.

Mas Fátima ressalva o esforço feito pelas empresas para explorar os canais de venda online. Algumas estreitaram relações com clientes internacionais — Espanha, França, Hong Kong e Estados Unidos continuam a estar no topo da lista de importadores de ourivesaria portuguesa –, outros aumentaram exponencialmente o volume de vendas via internet. “Num mês e meio fomos todos para o digital, uma transição que muitos diziam que ia demorar anos. O próprio setor tinha algumas reticências em aderir”, explica ainda.

Uma das ações da AORP para promover a ourivesaria portuguesa © Divulgação

Mas o futuro continua a não ser risonho para a ourivesaria portuguesa. Fátima acrescenta que não tem sido fácil para as micro empresas incorporar todas as condições de acesso ao financiamento. Ao mesmo tempo, será uma longa retoma, já que o produto em questão não vai estar entre as prioridades dos consumidores. Segundo o inquérito, quase 40% das empresas antecipa uma quebra nas receitas entre os 75 e os 100%, nos próximos meses. Cerca de um terço considera que o risco de encerrar definitivamente a atividade é elevado. Quase 35% acreditam que vão demorar entre um a dois anos a recuperar desta crise.

O timing pode não ser o melhor para avaliar investimentos futuros, mas a secretária-geral da AORP recorda o potencial que a reindustrialização da Europa (um dos temas do momento) pode ter para Portugal. Mesmo antes da pandemia, Fátima Santos já identificava um interesse crescente por parte de mercados como França, Alemanha e Países Baixos. Mesmo com cerca de 70% das empresas inquiridas a revelar terem suspendido os seus planos de investimento, promover o preço competitivo e a capacidade de produzir em menores quantidades e de personalizar o produto são trunfos nos quais a associação vai continuar a apostar.

O setor da ourivesaria portuguesa é composto por 4.300 empresas e representa um volume de negócio anual de 1.000 milhões de euros, dos quais 10% correspondem a exportação.

Para a Contrastaria, a prioridade sempre foi a saúde e a segurança

Numa resposta às dificuldades apontadas pela associação, em parte causadas pelo encerramento temporário das Contrastarias, a Imprensa Nacional – Casa Moeda (INCM) legitima a decisão, alegando que a prioridade sempre foi “a saúde e segurança dos seus clientes e colaboradores”. Num comunicado enviado esta sexta-feira ao Observador, a instituição, que retomou a atividade no dia 4 de maio, refere ainda que o encerramento foi uma medida adotada por outras Contrastarias da Europa, incluindo as de Espanha, Reino Unido, Polónia, Irlanda, Lituânia, Chipre e Eslovénia.

“Os clientes com obras depositadas e/ou marcadas, tendo sido contactados, não levantaram questões com o encerramento”, lê-se no comunicado emitido pela INCM.

A Contrastaria nacional refere ainda que, com a reabertura, se comprometeu, ainda durante o mês de abril, a suportar o custo de transportes das peças, de forma a oferecer alternativas ao atendimento presencial nos espaços de Lisboa e Porto. A esta opção, juntou um sistema de agendamento prévio para que quem precisar de recorrer aos seus serviços presencialmente possa descolar-se no momento exato em que será atendido. Prestes a ser lançado está ainda um sistema de senhas, ao qual os operadores económicos poderão aceder remotamente.

Artigo atualizado dia 8 de maio, às 19h55, com os esclarecimentos da Contrastaria da INCM.