Título: Ibo. Uma ilha entre natureza e cultura
Organizadores: Philippe de Grissac, Bibiana Nassongole e Fernando Morgado
Edição: Afrontamento
Páginas: 100, ilustradas, bilingue

A capa de “Ibo: uma ilha entre natureza e cultura”

Com o fundamentalismo islâmico a dominar o norte de Moçambique com um impacto brutal cuja devastação é de difícil cálculo na ausência de um jornalismo activo — e corajoso — e de um estado nacional inclusivo e minimamente organizado, é uma boa surpresa para os portugueses nascidos e crescidos naquelas terras, seguramente saudosos delas, e em geral para todos os amantes da natureza este pequeno livro que é, antes de tudo, um elogio da “notável biodiversidade” daquele pequeno recanto da costa oriental de África, que integra o Parque Natural das Quirimbas, classificado em Julho de 2018 pelo World Wild Life Fund como parte da reserva mundial da biosfera. Há uma segunda surpresa quando folheamos este livro: ele é o testemunho da cooperação da França, assumida pela embaixada no país e pelo Conservatoire du Littoral francês, junto da incipiente Faculdade de Ciências Naturais da UniLúrio, uma consequência — escreve o embaixador Bruno Clerc no prefácio — do Acordo de Paris sobre alterações climáticas: “o acordo deve também ser sustentado por milhares de iniciativas nacionais e locais que ocorram todos os dias no terreno” (p. 13).

Numa zona do mundo de presença histórica portuguesa, com edifícios notáveis há décadas reabilitados por iniciativa e financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, pode ser quase espinhoso perguntar hoje onde está a diplomacia portuguesa e por que razão Portugal não assumiu a colaboração que outros entenderam — e muito bem, chapeau! — desenvolver com Moçambique, ajudando à “preservação da ilha do Ibo, um dos mais representativos lugares do nosso país e do oceano Índico, em termos do valor inestimável do seu património natural, cultural e histórico” (Francisco Noa, reitor da UniLúrio, p. 15).

Com uma economia local de subsistência, e um linguagar dos seus habitantes repartido entre o árabe e dialectos locais como kimwani, emakhuwa e shimakonde, a conversão da ilha do Ibo — a mais povoada das 28 que integram o arquipélago das Quirimbas (um pouco menos de 10 mil habitantes em 10 km2; pp. 22, 17) — como “ícone turístico de Cabo Delgado”, tem o propósito de melhorar as condições de vida dos residentes nativos, que vivem sobretudo da pequena indústria do peixe defumado e seco e da agricultura em pequenas machambas, para consumo doméstico. A cultura de café, premiada internacionalmente em 1906, foi retomada em 2008 por 120 produtores organizados numa associação local, e produz duas toneladas ao ano. Um extenso mangal molda a paisagem verde-esmeralda e o azul-anil, e na linha do horizonte destacam-se a fortaleza portuguesa de São João Baptista (1769-95), a igreja matriz e o fortim de Santo António (1819) — Ibo foi a primeira capital de Cabo Delgado (hoje é Pemba) e da Companhia Majestática de Niassa —, mas sobre essa velha herança prevalece hoje o “sincretismo arquitectónico” entre as culturas portuguesa, árabe, indiana e em especial a cultura mwani, dominante entre os pescadores da região, parte dos quais vieram da Tanzânia ou da província de Nampula. O dhow e a mashua são os barcos mais comuns.

Os recifes de coral são a melhor barreira contra tempestades, a que os pescadores locais chamam “pedras vivas”

Durante a guerra civil pós-independência, muita gente fugiu da ilha mas a população cresceu exponencialmente entre o censo de 2007 e os dados actuais (de 6780 para 9503). Em consequência disso, exagerada extracção de pedra coralina para construção, derrubando franjas costeiras que são habitat de uma “extraordinária variedade de peixes” (p. 37), está a tornar-se um sarilho ecológico, clamando-se por que “a reabilitação das antigas habitações continue a ser uma das prioridades para os investidores e a hotelaria” (p. 31), ainda que esta seja por enquanto — a expressão é no mínimo curiosa — “relativamente confidencial” (p. 30). Além disso, “o desbaste e a deflorestação para obtenção de lenha ou construção de casas são as principais ameaças que pairam sobre os insectos no Ibo” (p. 42), mais de 60 espécies residentes, entre borboletas, escaravelhos, libélulas e gafanhotos. A sobre-exploração das pradarias marinhas para alimentação humana é um dos riscos em curso criados pelo rápido aumento populacional (p. 62). A abundante caça de tubarões — inclusive os juvenis — é outro dos desmandos ecológicos vivamente criticados pelos cientistas, na medida que aqueles superpredadores se alimentam e regulam a população de outros predadores, permitindo a sobrevivência das espécies que se encontram na base da pirâmide alimentar.

Ilhas são campos por excelência da investigação científica, locais de apoio à ciência para a sustentabilidade, e este notável projecto de identificação do património biológico da ilha do Ibo — um work in progress repetidamente afirmado neste livro — tem ainda a componente de formação e integração duma equipa local de jovens universitários eventualmente capazes de no futuro constituírem uma geração de zeladores ambientais indispensáveis a um longo país litorâneo como Moçambique. O próprio inventário da “biodiversidade notável” dessa pequena parcela, realizado sob a direcção científica global de Philippe de Grissac — de que se dá apenas “uma selecção de algumas espécies representativas do Ibo” (p. 37) —, admite como certo que próximas pesquisas na ilha confirmarão uma ainda maior diversidade: das árvores aos insectos e aos mamíferos, dos répteis às aves — 119 espécies facilmente observáveis, dada a exiguidade espacial —, parte delas migratórias entre Ásia e Europa, aproveitando a riqueza de mangais e baixios. Grissac, ele próprio um ornitólogo com livros publicados, diz-nos que os pássaros são “excelentes bioindicadores”: “onde as aves são diversas e numerosas, os ecossistemas que elas frequentam estão em bom estado e o homem pode estar tranquilo em relação ao seu futuro” (p. 48). De facto, o barbaças-de-peito-castanho, o picanço-quadricolor, o pica-peixe-dos mangais — com forte bico vermelho em forma de punhal, útil à sua dieta de peixes, caranguejos e outros crustáceos — ou o cucal-verde, podem fazer “valer a viagem ao Ibo” (p. 50), onde também comparecem o golfinho-nariz-de-garrafa, uma colónia com dezenas deles, e a cobiçada tartaruga verde (Chelonia mydas), o venenoso peixe-leão e o jovial peixe-palhaço. “Da ilha do Ibo, quando as noites são calmas, é comum escutar os golfinhos caçando em grupo. O batimento abafado da sua barbatana caudal à superfície soa como rebentamentos ao longe”, escreve Grissac (p. 51).

O homem é o pior predador, não há que ter dúvidas quanto a isso. Equilíbrios ecológicos dependem, portanto, da educação ambiental das comunidades humanas instaladas em ecosistemas de que elas são, afinal, apenas uma quota-parte. Autores não se coíbem de avisar que “o fecalismo a céu aberto ao longo da orla”, além de ameaçar a vida animal costeira, tem impacto na saúde humana e pode afectar o atractivo turístico da ilha” (p. 59)… Geralmente desvalorizados, mangais são “verdadeiros reservatórios de biodiversidade”, “alimento, zonas de reprodução e protecção de muitos organismos marinhos e terrestres” (Francisco e Caravela, p. 53). Ibo dispõe de um vasto e bem conservado mangal, que envolve a ilha e faz dela um caso contra-corrente à regressão desse habitat noutras partes do globo. Mas também há praias com plataforma continental rochosa geralmente coberta de algas, praias de areia clara seguida de rochas cobertas de lapas que alternam com pradarias marinhas onde se encontram belas estrelas-do-mar com braços longos e finos, e os recifes de coral — a melhor barreira contra tempestades — a que os pescadores locais chamam “pedras vivas” (p. 67). Protegidos do aquecimento da água marítima pelo microclima do canal de Moçambique, de que recebem influência, os corais do Ibo — viveiro ideal para várias espécies de peixes — estão longe dos grandes fenómenos de branqueamento, que corrompem estas admiráveis formações, mas este “bónus adicional para atrair entusiastas de mergulho” exige que este tipo de turismo seja mantido sob vigilância “para que não contribua para a destruição destas maravilhas” (p. 68).

Integrando a rede de ilhas sustentáveis SMILO, e recomendando a criação de um comité insular capaz de gerir o presente e o futuro do Ibo com a colaboração da sua população e demais intervenientes, o inesperado inventário científico da flora e fauna da ilha moçambicana produziu este livro-relatório — de que foi feita também uma titagem português-inglês — que tem ainda a particularidade de declarar, na contracapa, que “todo o produto da venda deste livro será doado à Universidade Lúrio e ao seu programa de promoção de pesquisas nas Ciências de Ecologia no Parque Nacional das Quirimbas”. Parabéns às Edições Afrontamento por ser ser parceira atenta desta generosa e lúcida campanha.