Durante esta pandemia de Covid-19, o Facebook afirma ainda que removeu mais de 2,5 milhões de anúncios sobre venda de máscaras, desinfetantes para as mãos, toalhetes desinfetantes de superfície e kits de teste Covid-19 da rede social, reflexo de uma medida que implementou para evitar fraudes. “Desde os primeiros dias deste surto sabíamos que teríamos um papel importante”, disse Mark Zuckerberg, presidente executivo da empresa numa conferência telefónica com jornalistas na qual o Observador participou.

Tomámos medidas que nunca tínhamos feito, como um anúncio [sobre a Covid-19] no topo da rede social”, diz Zuckerberg.

Os dados foram revelados esta terça-feira, na divulgação da quinta edição do “Relatório de Aplicação dos Padrões da Comunidade”, o documento no qual a empresa que gere a rede social com o mesmo nome, e o Instagram, revela dados sobre como tem aplicado as suas normas. Além disso, e sendo estes dados até março, a empresa cofundada e liderada por Mark Zuckerberg revela como tem gerido o impacto da pandemia na rede social. “O investimento que fizemos nos últimos anos ajudou-nos a preparar para este momento“, disse o executivo.

A empresa revela também que “começou a usar mais a tecnologia para priorizar o conteúdo que é revisto pelas equipas, baseado em fatores como a viralidade e a severidade”. “Daqui para a frente o objetivo é tomar o melhor partido da tecnologia de maneira a que esta tome ação sobre o conteúdo, ao remover mais posts de forma automática“, diz a empresa.

Mike Schroepfer, diretor de tecnologia do Facebook, afirmou ainda durante a conferência telefónica que foi criada uma base de dados com “memes de ódios” para ajudar a combater a desinformação e colmatar as falhas na equipa de revisores humanos que não pode estar a trabalhar com as mesmas condições a partir de casa.

Entre os principais dados relativos ao período da pandemia, o Facebook afirma que direcionou 2 mil milhões de pessoas para páginas oficiais sobre a Covid-19 através das suas plataformas. Outro dado revelado é o de o Facebook ter posto alertas para evitar a desinformação em 50 milhões de artigos partilhados na rede social sobre o novo coronavírus, isto baseado nos cerca de 7.500 artigos feitos pela rede de fact-checkers da empresa (da qual o Observador faz parte pelo IFCN).

Facebook disponibiliza dados anónimos a investigadores para ajudar a combater a Covid-19

No que diz respeito aos dados deste ano sobre a aplicação dos padrões da comunidade, a empresa tem também novidades. Sendo dados ainda pré-covid — são referentes ao período entre outubro de 2019 e março de 2020 –, o Facebook mostra um retrato das principais preocupações antes da pandemia e como está a tentar resolvê-las. A empresa afirma que “a expectativa é que o impacto destas mudanças estejam presentes no próximo relatório, e possivelmente até depois“.

Em comunicado, a empresa diz que, nos últimos anos, “esteve focada na criação de ferramentas, equipas e tecnologias que protejam as eleições de interferência externa, que previnam a propagação de desinformação e protejam as pessoas de conteúdo nocivo”.

Ou seja, o Facebook esteve focado em resolver os problemas pelo quais tem sido criticada desde que foi revelado, em 2018, que a empresa de análise de dados Cambridge Analytica utilizou indevidamente dados de 87 milhões dos utilizadores. Ou os problemas que teve para evitar a propagação do vídeo do atentado em Christchurch. Lembrar que foi em 2019 que o Facebook fechou o assunto Cambridge Analytica, pagando cinco mil milhões de dólares (cerca de 4,5 mil milhões de euros) aos reguladores norte-americanos.

Quando a empresa decidiu que os revisores do conteúdo deviam começar a trabalhar remotamente, também decidiu aumentar a confiança em sistemas automatizados e deixar o conteúdo mais grave nas mãos dos revisores, que garantem a segurança das aplicações do Facebook durante este período”, diz o Facebook.

Zuckerberg sobre o seu Supremo Tribunal: “Estou a fazer um forte compromisso por mim ou por quem um dia puder vir a administrar a empresa”

Nesta quinta edição deste relatório o Facebook revelou pela primeira vez dados sobre o número de apelos — ou recursos — que os utilizadores fizeram quando quiseram recorrer de uma decisão de conteúdo no Instagram. Além disso, revelou também o número de decisões que foram alteradas baseadas num destes recursos (um dado que o Facebook tinha avançado ao Observador em dezembro que queria tornar mais transparente).

Lembrar que, na semana passada, a empresa divulgou os membros de uma “entidade independente que criou” para ajudar “nos casos mais complicados”. Sobre isso, Mark Zuckerberg disse: “Estou a fazer um forte compromisso por mim ou por quem um dia puder vir a administrar as empresas para seguirem a mesma base de valores“. Para o sobre esta aposta numa entidade independentes ajudará a decidir o que está ou não na rede social, mesmo que vá contra a sua vontade.

Facebook anuncia dirigentes do seu ‘Supremo Tribunal’

Entre estes dados revelados esta terça-feira, a rede social destaca ainda que, agora, pode “detetar quase 90% conteúdo que é removido antes que alguém o denuncie”. Ou seja, os mecanismos de inteligência artificial aliados aos revisores humanos estão mais eficientes a detetar assuntos proibidos nas plataformas.

Por causa da pandemia, os revisores humanos que ajudam estas ferramentas a funcionar, tanto empregados diretamente pelo Facebook como através de entidades terceiras, tiveram de trabalhar remotamente. Isso levou os responsáveis da empresa, numa altura em que ainda incentiva os funcionários a estarem em teletrabalho, a ter de escolher focos principais para os temas a moderar.

“Vamos sempre errar.” Como o Facebook deteta e lida com as contas falsas

Com a novidade sobre o aumento da eficiência dos posts retirados, o Facebook revela ainda que “melhorou a tecnologia de correspondência de imagens e texto para ajudar a encontrar mais conteúdo relacionado com suicídio e automutilação“. Por causa disso, a empresa disse que foi possível “aumentar a taxa de deteção proativa em mais de 12 pontos percentuais desde o último relatório”.

Pedidos dos governos ao Facebook sobem 9,5%

A rede social social divulgou também nesta terça-feira os últimos números referentes a pedidos feitos pelos governos dos países para a empresa ceder dados. À semelhança de outros anos, no topo destes pedidos continuam a estar os EUA, seguidos pela Índia, pelo Reino Unido, pela a Alemanha e a França. Ao todo, foram feitos 140.875 pedidos de dados ao Facebook na segunda metade de 2019, uma subida de 9,5% em relação ao período anterior, diz a empresa.

Como sempre, examinamos cada solicitação que recebemos de um governo para garantir que ela seja legalmente válida, independentemente do governo que a faça. Se uma solicitação parecer insuficiente ou excessivamente ampla, recuaremos e lutaremos em tribunal, se necessário. Não fornecemos aos governos ‘portas dos fundos’ [backdoors] para as informações das pessoas”, diz o Facebook.

Um terço deste pedidos (mais de 50 mil) são referentes aos EUA. Contudo, Portugal também entra nesta lista, mas com um número menor: 776 pedidos. Este valor é inferior ao período anterior, quando Portugal fez 855 pedidos. Contudo, nos últimos seis meses de 2019, o Facebook afirma que só concedeu dados em 37% destes casos. O próximo relatório de transparência do Facebook vai ser divulgado em agosto, daqui a três meses.

No final de abril a rede social revelou, no relatório trimestral, que tem mantido “estáveis” as receitas que obtém através da venda de anúncios, isto antes de o mercado estar afetado pelo novo coronavírus.

Foi nesta data que a empresa afirmou “teve uma redução significativa na procura de anúncios” em abril, não indo mais longe nestes dados. Contudo, e com o números de utilizadores a crescer, o Facebook não adiantou esta terça-feira mais informações sobre receitas durante o período da pandemia além das apresentadas no final de abril.

*Artigo atualizado às 20h50 com informação dos responsáveis do Facebook durante conferência telefónica com jornalistas.