O procedimento tem sido seguido por muitos outros setores. Em representação dos operadores económicos, a APEFE (Associação de Promotores, Espetáculos, Festivais e Eventos) entregou na última segunda-feira uma proposta de guia de boas práticas para a reabertura das salas de espetáculo, já anunciada para dia 1 de junho. Uma promessa com reticências, segundo Sandra Faria, presidente da associação e também ela responsável por uma produtora.

A higienização dos espaços, bem como o uso obrigatório de máscara já foram antecipados pelos proponentes e são procedimentos dados como certos. A lotação dos espaços mantém-se uma incógnita — os profissionais esperam que o Governo se pronuncie. “Aguardamos as medidas. Mas já salvaguardámos que, com uma grande redução na lotação dos espetáculos, muitas salas e promotores privados não vão conseguir trabalhar”, explica Sandra ao Observador.

Covid-19. Manifesto em Defesa da Cultura quer mobilização imediata de meios para o setor

A aritmética é simples. Mesmo com uma lotação limitada a metade dos lugares de uma sala, a associação antecipa que muitos profissionais não terão forma de cobrir os custos do espetáculo. “Reduzir a lotação pode fazer com que o setor nem sequer reabra. Se pensarmos que um espetáculo atinge o seu break-even quando vende entre 70 e 80% da sala”, desabafa a presidente da associação.

Além das medidas propostas, que a presidente prefere não revelar na íntegra, a APEFE disponibilizou-se a trabalhar em conjunto com a DGS para chegar às melhores diretrizes para esta primeira fase de reabertura de salas de espetáculo. Contudo, a associação, que reúne 41 empresas, entre elas as maiores produtoras nacionais nas áreas da música e do teatro, ainda não foi consultada.

No contexto internacional e no caso específico da música, o CEO da Live Nation, a gigante promotora norte-americana, já anunciou que os concertos de grande escala só vão regressar em 2021. “Durante o verão, vamos fazer alguns testes, mas sempre com concertos sem fãs. Isso traz-nos algumas oportunidades no que toca à transmissão, o que pode ser positivo para a nossa relação com os anunciantes. Também concertos drive-in, que temos estado a experimentar com algum sucesso, e concertos em festivais com capacidade reduzida, desde que haja espaço para manter as pessoas seguras”, indicou Michael Rapino, em entrevista à revista Variety.

A primeira experiência de concerto em tempos de pandemia está marcada para dia 15 de maio, em Fort Smith, no estado de Arkansas. Travis McCready, vocalista dos Bishop Gunn, vai atuar no Brown’s TempleLive, sala com capacidade para 1.100, mas que nesse dia acomodará apenas 229, ou seja, cerca de 20% da lotação.

Em Portugal, os grandes festivais de música ficam interditos até 30 de setembro, mas muito antes disso, a 1 de junho, as salas de espetáculo têm luz verde para reabrir. Música, teatro e dança aguardam agora pelas regras de higiene e segurança decretadas pela DGS para essa reabertura. Priorizam a segurança do público, mas também temem o tardar das medidas oficiais. “Uma loja reabre e as pessoas entram e compram. Um espetáculo precisa de ser programado, montado, ensaiado e divulgado”, afirma Sandra Faria.

“Precisamos de uma decisão o mais depressa possível para poder programar. Neste momento, o grande problema é não conseguirmos planear. Estamos a viver uma instabilidade profunda num setor que já é precário por si. A faturação é zero e há pessoas a passar por muitas dificuldades”, completa.

Ainda assim, a APEFE acredita poder ter uma resposta do Ministério da Cultura e da DGS ainda esta semana. A partir daí, o setor irá adaptar-se. “Depende das características de casa espetáculo. Produções com grandes elencos e equipas e com muitos meios vão ter mais dificuldades”, resume a responsável. Para os promotores culturais, e para todos os que deles dependem, o futuro, ainda que a curto prazo, é incerto. “Fomos o primeiro setor a fechar e, pelos vistos, vamos ser o último a abrir”, conclui.