Os mecanismos de reconhecimento facial enfrentam um novo desafio, agora que uma parte significativa da população está a sair de casa com máscaras. A estes sistemas de identificação, que dependem muito das imagens que compõem os respetivos bancos de dados, é-lhes exigido uma adaptação.

Ao espanhol El País, Ramón Lopez de Mantarás, do Instituto de Investigação em Inteligência Artificial do CSIC, diz que se estes mecanismos não tiverem na sua programação imagens de pessoas com máscaras, então, “terão mais deficiências e serão muito imprecisos”.

Já Lorena Jaume-Palasi, fundadora da The Ethical Tech Society, explica que na Europa ainda não existem dados suficientes para que o reconhecimento facial funcione corretamente em tempos de pandemia. “Os algoritmos de identificação europeus com as melhores capacidades para este contexto apenas têm 100 mil fotografias, um número muito insuficiente”. A capacidade do reconhecimento facial, continua o jornal, diminui quando um rosto escurece — seja pelo tom de pele ou pelo ângulo da câmara —, pelo que a máscara é, sem dúvida, um grande desafio.

Mas se no mundo ocidental a tecnologia procura adaptar-se a novas realidades, o mesmo não se pode dizer do continente asiático, com bons exemplos concentrados em países como Japão, Coreia do Sul e China. O El País refere a aplicação chinesa Alipay — com 1.2 mil milhões de utilizadores em todo o mundo —, que permite que os clientes paguem sem ser necessário remover as respetivas máscaras. A identidade dos utilizadores é facilmente detetável.

Para Jaume-Palasi, no que à biometria diz respeito, são as empresas chinesas e russas que seguem na liderança, ainda que o instituto norte-americano National Institute of Standards and Technology (NIST) seja também um bom exemplo.

Há, no entanto, questões éticas associadas a estes equipamentos, tanto que em setembro do ano passado manifestantes em Hong Kong optaram por usar máscaras de forma a não serem identificados pelas autoridades — além de terem danificado duas dezenas de postes de luz “inteligentes”. Sobre isso, Lopez de Mantarás diz que fica feliz por saber que as máscaras dificultam o processo de identificação, uma vez que a “desculpa” da segurança permite abusos do ponto de vista tecnológico.

Em Londres, por exemplo, desde o início do ano que são utilizadas câmaras que permitem o reconhecimento facial em tempo real. Nem de propósito, em março o The Telegraph noticiou que uma empresa britânica apostada em biometria desenvolveu uma nova tecnologia que permite identificar pessoas mesmo quando estas estão a usar máscaras, isto numa altura em que as preocupações em torno da pandemia começavam a escalar em diferentes pontos do globo. A empresa em questão foca-se na área dos olhos e das sobrancelhas para fazer um match.